Durante toda a semana, uma pergunta dominou os bastidores: quem ganhou e quem perdeu as eleições em Sergipe? Sun Tzu, autor de A Arte da Guerra, ensinava que vencer sem combater é uma das maiores habilidades de um estrategista. Fábio Mitidieri foi reeleito com 59,27% dos votos, enquanto antigos aliados e possíveis concorrentes saíram enfraquecidos. A concentração de poder no círculo mais próximo do governador alimenta críticas ao funcionamento de sua “igrejinha política”. Na guerra convencional, o inimigo costuma estar do outro lado. Em Sergipe, até quem veste o mesmo uniforme precisa conferir de onde vem a artilharia.
André Moura é o personagem central dessa guerra. Mobilizou dezenas de prefeitos e lideranças, mas terminou com 377.669 votos, apenas 22.106 atrás de Alessandro Vieira. A derrota expôs uma contradição incômoda: de que adianta um aliado ajudar a fortalecer o governo se, na hora decisiva, não encontra a mesma unidade em torno de sua candidatura? Uma praguinha no peito não substitui campanha, governador! Eleito senador, André teria oito anos de mandato e poderia disputar o governo, confrontando o projeto de sucessão de Fábio Mitidieri em favor de Jefferson Andrade. Nos bastidores, esse projeto é associado a um antigo entendimento entre as duas famílias, cuja existência e alcance permanecem sujeitos a esclarecimento. O que merece cobrança é a diferença entre o apoio anunciado e a mobilização efetivamente entregue. Sun Tzu entenderia a ironia: André reuniu generais para a batalha, mas terminou descobrindo que, na política, o maior risco nem sempre está no exército adversário. Às vezes, está no quartel que promete reforços e entrega apenas fotografias.
Nossa Senhora do Socorro oferece outra cena dessa comédia militar. Samuel Carvalho, aliado do governador, concentrou esforços na campanha de Alessandro Vieira, cuja primeira suplente é sua esposa, Adriana Carvalho. A situação expôs a fragilidade da unidade governista. Enquanto André precisava de cada voto, lideranças da própria base trabalhavam por outro candidato, inclusive pedindo para não votar em André. Sun Tzu ensinava que a disciplina começa pelo comando. Em Socorro, entretanto, a tropa parecia ter dois mapas e um fotógrafo. André recebeu continência no palanque, mas viu soldados marcharem em outra direção.
Em Lagarto, a guerra entre os generais Bole-Bole e Saramandaia ganhou um novo capítulo, com Fábio Mitidieri politicamente mais próximo do quartel dos Reis. De um lado, Gustinho Ribeiro e Hilda, representando os Bole-Bole. Do outro, Sérgio e Fábio Reis, comandantes da Saramandaia. Nas urnas, Fábio Reis conquistou 26.877 votos, contra apenas 10.503 de Gustinho. Ambos foram eleitos, mas Hilda terminou na suplência estadual. A preferência política do governador pela família Reis alimentou críticas de quem esperava tratamento equilibrado entre aliados. Sun Tzu ensinava que escolher o terreno é decisivo na guerra. Em Lagarto, os generais disputaram cada trincheira, enquanto o Palácio demonstrava maior proximidade com a Saramandaia. Gustinho conservou o mandato, mas viu a família Reis ampliar sua vantagem no município. Nessa guerra, até o general chinês pediria reforços para entender uma política em que os dois exércitos apoiam o mesmo governador, mas continuam apontando os canhões um para o outro.
Thiago de Joaldo conhecia os corredores do Palácio antes de romper politicamente com o governo. Terminou com 57.541 votos e não renovou o mandato federal. Sua derrota retirou da Câmara uma liderança que passou a fiscalizar e questionar a administração estadual. Nos bastidores, o resultado também é interpretado à luz de seu afastamento do grupo governista. Sun Tzu recomendava conhecer as posições adversárias. Thiago conhecia o castelo por dentro, mas perdeu sua cadeira. Na política, às vezes o sujeito sai pela porta da frente e descobre que trocaram as fechaduras antes de alcançar o estacionamento.
Edvaldo Nogueira também saiu dessa guerra com uma derrota política que ultrapassa os 187.491 votos recebidos para o Senado. Prefeito de Aracaju por quatro períodos, abriu mão de disputar o governo em 2022 e apoiou Fábio Mitidieri. Quatro anos depois, mal terminaram as eleições, o governador já colocou Katarina Feitoza, Ricardo Vasconcelos e Nitinho no radar do PSD para a Prefeitura de Aracaju em 2028. E Edvaldo? Ficou fora da primeira escalação. A “igrejinha” governista parece ter pressa em escolher seus próximos generais, enquanto antigos aliados aguardam do lado de fora do quartel. Sun Tzu ensinava a importância de preservar alianças estratégicas, mas essa sucessão levanta uma pergunta incômoda sobre reciprocidade política. Edvaldo ajudou a abrir o caminho do Palácio para Fábio; agora vê o governador desenhar outra rota para a prefeitura. Na política, a ingratidão não precisa de discurso: basta anunciar os próximos convidados e esquecer quem ajudou a organizar a festa.
A próxima batalha já começou. Gustinho Ribeiro, Fábio Reis, Capitão Samuel e Ícaro de Valmir manifestaram apoio a Flávio Bolsonaro. O movimento demonstra que adversários estaduais podem compartilhar posições nacionais. André Moura, Thiago e Edvaldo também reorganizarão seus projetos. Sun Tzu ensinava que a estratégia muda conforme o terreno. Em Sergipe, o mapa político precisa ser atualizado entre o café e o almoço. Hoje os generais se enfrentam, amanhã se abraçam e depois descobrem que pertencem ao mesmo batalhão. A guerra termina, mas a fábrica de uniformes continua funcionando.
O desafio de Fábio Mitidieri agora é demonstrar que sua articulação política não se limita à preservação do poder e ao fortalecimento dos mais próximos. Governar exige conviver com divergências e enfrentar problemas na saúde, educação, infraestrutura e abastecimento de água. Sun Tzu ensinou a conquistar territórios, mas não deixou manual para consertar adutoras. Neste sábado de véspera de feriado, enquanto os generais discutem medalhas e fogo amigo, o cidadão espera resultados. O governador ficou com o castelo, mas precisa governar também para quem não pertence à sua igrejinha. Afinal, o Palácio é público, a conta é coletiva e Sergipe não é propriedade particular de nenhum general.




