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Editorial: A Câmara em movimento e o velho jogo do poder

A disputa pela presidência da Câmara Municipal de Aracaju mal saiu do papel e já virou assunto de corredor, cafezinho e telefone no silencioso. Nada mais natural. Quando a presidência entra em aberto, o Legislativo deixa de ser apenas plenário e vira tabuleiro. E, nesse tabuleiro específico, quatro perfis bem distintos começam a se desenhar, cada um com suas virtudes, limites e estratégias.

Largando na frente está Nitinho Vitale. Não por acaso. Nitinho carrega um ativo raro na política local: memória administrativa positiva. Já presidiu a Casa mais de uma vez, conhece o funcionamento interno, domina o regimento, sabe onde o processo emperra e onde flui. Não foi um presidente decorativo. Organizou a pauta, deu previsibilidade ao plenário e manteve a Casa funcionando sem sobressaltos institucionais. Em política, isso conta muito. Mais ainda quando recebe o apoio explícito do atual presidente.

Ricardo Vasconcelos sai de cena com um plano maior no horizonte e deixa claro que prefere alguém conhecido no comando. O apoio a Nitinho não é apenas gesto de gratidão política. É também cálculo. Ricardo sabe que presidência da Câmara não é espaço para improviso nem laboratório de vaidades. Precisa de alguém que saiba dialogar, administrar egos e, principalmente, manter a Casa em funcionamento quando o ambiente esquenta. Nitinho, goste-se ou não do estilo, já provou que sabe fazer isso.

Do outro lado está Isac Silveira, nome ligado diretamente à prefeita Emília Corrêa. Isac é ativo, combativo, presente, mas carrega um problema clássico para quem quer presidir um colegiado: dificuldade de convivência. Liderar governo é uma coisa. Presidir Câmara é outra completamente diferente. O presidente não pode ser apenas voz firme, precisa ser ponte. E Isac, segundo relatos recorrentes de bastidor, costuma transformar divergência em atrito permanente. Em um plenário onde voto se conquista mais na conversa do que no discurso, isso pesa. Não por falta de capacidade intelectual, mas por excesso de confronto. Presidência exige menos combate e mais paciência institucional.

No meio desse jogo aparece Anderson de Tuca, talvez o mais silencioso e, por isso mesmo, o mais interessante. No terceiro mandato, Anderson conhece o ritmo da Casa, tem trânsito livre entre diferentes grupos e evita brigas públicas. Não é nome que grita, mas é ouvido. Seu problema não é rejeição, é densidade. Para crescer na disputa, precisa transformar boa circulação em voto consolidado. Se conseguir, pode virar fiel da balança. Se não, seguirá como articulador relevante, mesmo sem a cadeira principal.

O que esse cenário revela é simples. A disputa não é ideológica, é de perfil. A Câmara de Aracaju não procura um tribuno inflamado nem um gestor de gabinete fechado. Procura alguém que saiba equilibrar interesses, conduzir sessões, negociar pauta e, principalmente, não transformar a presidência em palco pessoal. Por isso, hoje, Nitinho aparece em vantagem. Não porque seja unanimidade, mas porque reúne o que o momento pede: experiência, apoio interno e capacidade de convivência.

A política municipal tem dessas ironias. Às vezes, vence quem fala menos e escuta mais. Às vezes, perde quem grita melhor, mas não soma. A eleição ainda vai rodar, os jantares ainda vão acontecer e os telefonemas ainda vão ser feitos. Mas, até aqui, o desenho é claro. Em uma Casa que já viveu turbulências demais, a maioria parece preferir previsibilidade a bravata. E, nesse quesito, Nitinho larga alguns passos à frente.

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