O governador Fábio Mitidieri entrou na manhã de sábado como quem convoca coletiva para anunciar harmonia, estabilidade e uma chapa majoritária “redonda”. Saiu com um palanque que parecia mais teste de estresse político do que composição eleitoral. A foto oficial dizia unidade; o enquadramento dizia tensão. E, como sempre, a política prefere a imagem à legenda.
A escolha de Jefferson Andrade para a vice foi o momento em que Sergipe respirou aliviado. Jefferson é o tipo de figura que transita onde muita gente apenas tenta passar. Entra no Tribunal de Contas e é recebido, cruza com desembargadores e é cumprimentado, fala com o Ministério Público e ninguém muda de calçada. Em tempos de cacofonia institucional, ele é quase um corretor natural de ruídos. Jogada limpa do governador, sem margem para contestação.
Mas, passado o acerto inicial, veio a pressa. E foi nessa aceleração que a engrenagem começou a ranger. O governador tinha diante de si duas alternativas politicamente mais coerentes para fechar a chapa: Edvaldo Nogueira ou Rogério Carvalho. Com Rogério, teria o apoio orgânico do PT, uma garantia de palanque unificado e discurso nacional alinhado, algo que pesa em ano de eleição presidencial. Com Edvaldo, ofereceria à própria base governista a alegria de ver um nome de trânsito amplo, experiente e reconhecido, opção que não enfrentaria resistência nem mesmo de André Moura, que enxerga nos dois nomes perfis politicamente assimiláveis e bem mais harmônicos.
Em qualquer cenário, havia tempo. Havia espaço. Havia lógica. Faltou justamente o que faltou na foto: esperar. A decisão de anunciar Alessandro Vieira ao lado de André Moura antes de concluir a costura, e, sobretudo, antes de tentar pacificar antagonismos históricos, deu ao gesto um ar de escolha prematura, quase impulsiva. Em vez de consolidar a unidade, expôs a dificuldade de produzi-la.
O problema não foi a busca pela amplitude, mas a matemática do antagonismo. André e Alessandro são opostos que, por mais que o governador desejasse, não se somam. A tentativa de juntá-los funcionou como um seminário improvisado de filosofia política. Aristóteles já alertava, séculos atrás, que a cidade se desfaz quando tenta reunir cidadãos em inimizade, “porque, nessa condição, eles não querem nem compartilhar o mesmo caminho”. No palanque, parecia exatamente isso: André firme, postura de quem carrega o lastro político real do grupo; Alessandro, sorriso amarelado de quem percebeu que a harmonia estava no discurso, não no ambiente.
Platão completaria a cena com precisão cirúrgica. Para ele, quando se tenta governar unindo opostos irreconciliáveis, a cidade racha em duas, a dos que convivem e a dos que toleram. A imagem oficial da chapa é quase didática: o governador tentando costurar enquanto os dois lados, educadamente, preferiam não costurar nada. O gesto de Fábio foi bonito na intenção, mas político na consequência: pode ter produzido não uma chapa, mas dois projetos separados dividindo o mesmo retrato.
E nesse contraste, André Moura aparece apenas como alguém que ocupa seu espaço político habitual, enquanto Alessandro surge isolado, preso a uma atuação quase protocolar, mais preocupado em cumprir presença do que em construir diálogo. A diferença entre os dois não produz soma, apenas evidencia distância. E é justamente dessa distância que nasce o maior problema para o governador: nenhum deles vai pedir votos para o outro. Não existe palanque compartilhado, não existe narrativa conjunta, não existe reciprocidade eleitoral. Cada um seguirá sua própria trilha, e o resultado é direto e previsível: uma chapa em que os candidatos ao Senado não se ajudam é uma chapa que enfraquece a própria reeleição de Fábio, porque fragmenta o discurso e dilui a força do bloco governista no momento em que ele mais precisaria parecer uno.
O governador, ao tentar colocar panos quentes, acabou revelando que não havia fogo, mas sim brasas antigas, guardadas com zelo. E brasas, quando abafadas, não apagam: aquecem mais. A antecipação do anúncio, quando ainda havia espaço para escolher entre Edvaldo e Rogério, ambos caminhos politicamente mais naturais, foi o ingrediente final do improviso.
No fim, o gesto de Mitidieri revela duas verdades. A primeira é que ele queria demonstrar liderança e acabou expondo que sua harmonia interna ainda é tese, não prática. A segunda é que, gostem ou não, o nome com maior tração política segue sendo André Moura que não precisou umedecer discurso nem forçar sorriso para mostrar quem realmente ocupa espaço na arena. A chapa está montada. O palanque, nem tanto. E 2026 promete não perdoar quem confunde fotografia com unidade.




