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Editorial: A chapa precoce do Governo e o sol que começou a derreter a política sergipana

Na política existe uma máxima antiga, repetida em mesa de bar, gabinete e carro de som de campanha: quem planta eleição cedo demais corre o risco de colher confusão antes da hora. O governador Fábio Mitidieri resolveu inovar e lançou a chapa majoritária com uma antecedência quase científica. Parecia estratégia moderna, parecia planejamento de laboratório, parecia até manual de marketing político. Só esqueceram de avisar que política não é química de escola e que, quando se mistura água com óleo, o máximo que acontece é espuma, barulho e gente se olhando atravessado.

Desde o primeiro momento muita gente coçou o queixo e pensou baixinho: isso não vai prestar. Alessandro Vieira é um político que fala o que pensa, pensa o que quer e decide sozinho o que deve fazer. André Moura é de outra escola, mais silencioso, mais observador, daqueles que anotam tudo mentalmente e deixam o tempo trabalhar. Colocar os dois no mesmo barco parecia interessante na fotografia, mas na prática era como colocar um sanfoneiro tocando forró e um baterista tocando rock na mesma festa. Uma hora a música desanda.

O resultado veio do jeito que a política gosta de produzir espetáculo. Alessandro falou duro, André respondeu firme, a família entrou no circuito e o governador precisou fazer aquilo que todo técnico de futebol faz quando o vestiário começa a ferver: mexer na escalação. Alessandro saiu da chapa. Saiu dizendo que respeita a decisão do governador, mas deixou no ar aquela frase clássica que em política sempre vem carregada de pólvora: “decisões têm consequências”. E quem conhece Brasília sabe que frase assim não é despedida, é aviso.

E as consequências começaram a circular nos corredores do Palácio como cheiro de café forte em repartição pública. Reuniões discretas, conversas reservadas, gente entrando por uma porta e saindo por outra. Uma dessas reuniões, comentada nos bastidores com certo entusiasmo pela oposição, reuniu figuras importantes do tabuleiro político. Quando esse tipo de encontro acontece em Sergipe, todo mundo sabe que não é para falar de chuva nem de futebol. É porque alguém está redesenhando o mapa da eleição.

Enquanto isso, André Moura segue com aquele estilo que muita gente conhece bem, fala pouco, observa muito e anota tudo. André trouxe uma quantidade expressiva de prefeitos para a base do governo, o que não é pouca coisa num Estado onde prefeito ainda move voto, estrutura e palanque. O problema é que, quando se faz a conta política, o retorno desse apoio não parece ter sido proporcional. E política pode até ter poesia nos discursos, mas no fim das contas ela funciona mesmo é na base da matemática.

No meio desse cenário aparece Edvaldo Nogueira fazendo aquilo que sempre soube fazer bem, caminhar com tranquilidade e construir base política sem barulho nem alarde. Edvaldo montou uma chapa sólida e decidiu seguir praticamente independente do humor do governo. Ao seu lado surge uma figura que tem chamado atenção por onde passa, o empresário Teixeira Caminhões, primeiro suplente da chapa, um homem respeitado no mundo dos negócios e que vem surpreendendo na política. Nas reuniões e encontros pelo interior, Teixeira chega com simplicidade, conversa olhando no olho, escuta as pessoas e demonstra aquilo que o povo gosta de chamar de cheiro de gente. Não é pouca coisa.

E no canto do tabuleiro ainda existe Rogério Carvalho, médico, político experiente e dono de um eleitorado fiel. Rogério observa o cenário com a calma de quem já viu muita eleição virar do avesso. Ele sabe que entrar ou não numa chapa governista pode significar ganhar força ou comprar desgaste. Por isso analisa cada movimento com frieza. Rogério sabe que política é como cirurgia delicada, um movimento errado pode comprometer o resultado.

Na disputa pelo Senado, Rodrigo Valadares segue firme, mantendo uma campanha ativa e bem posicionada no eleitorado de direita. Ele carrega um ativo político forte, a ligação direta com o bolsonarismo, simbolizada pelo apoio de Flávio Bolsonaro. Nesse cenário polarizado entre direita e esquerda, Rodrigo ocupa um espaço claro no tabuleiro político sergipano. Muitos analistas apontam que, na divisão tradicional de votos da direita, ele tende a receber o segundo voto do eleitor conservador. Entre os evangélicos, essa lógica também aparece com força. Assim, Rodrigo vai surfando nessa onda com relativa tranquilidade dentro do campo da direita.

Do outro lado surge Eduardo Amorim com um discurso renovado e a experiência de quem conhece profundamente a política sergipana. Ex-deputado federal e ex-senador, Eduardo mantém também sua atuação como médico, continuando a atender e operar pacientes. Fala com tranquilidade, olha nos olhos e transmite segurança por onde passa. Essa combinação de experiência pública e presença humana gera simpatia natural entre os eleitores. Com trânsito em diversos setores da sociedade, apresenta-se como liderança madura e preparada para novas responsabilidades. No campo conservador, também disputa espaço entre os eleitores bolsonaristas.

Agora vem a ironia que Brasília adora produzir. O governador que começou o jogo dizendo que tinha quatro nomes fortes orbitando sua chapa para o Senado, André Moura, Alessandro Vieira, Edvaldo Nogueira e Rogério Carvalho, hoje assiste a um cenário curioso. Alessandro foi retirado da chapa, Edvaldo caminha sozinho, Rogério analisa de longe e André observa o tabuleiro com calma. O governador que parecia ter quatro candidatos ao Senado agora vive o estranho fenômeno político de não ter nenhum completamente dentro do barco.

É uma situação que lembra aquelas festas onde o anfitrião prepara a mesa para quatro convidados importantes e, quando olha para a porta, descobre que cada um resolveu jantar em outro lugar. A política tem dessas ironias. E talvez o erro tenha sido justamente a pressa. Chapa majoritária não se monta com antecedência de calendário, se monta com equilíbrio de grupo, confiança e respeito político.

No final das contas, a tal inovação política acabou virando uma espécie de laboratório que saiu do controle. A chapa que nasceu antes da hora começou a derreter antes da campanha. Enquanto o Palácio tenta reorganizar as peças do quebra cabeça, alguns personagens seguem muito mais tranquilos do que outros. Porque em política, quem fala menos e observa mais costuma chegar mais inteiro na reta final. E nisso, alguns jogadores desse tabuleiro parecem ter entendido perfeitamente o momento.

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