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Editorial: A convocação no apagar das luzes

O governo Fábio Mitidieri chegou ao dia 4 de julho com a caneta na mão, o relógio correndo e a legislação eleitoral batendo na porta como fiscal impaciente de concurso público. É preciso reconhecer que houve convocação, houve anúncio, houve movimentação administrativa e houve, sim, cumprimento de uma parte importante da promessa feita aos aprovados. Chamou Emdagro, anunciou Cogerp, falou em Funsecom e colocou no roteiro os 435 excedentes da Polícia Militar de Sergipe. Para quem esperava há meses, anos, com diploma na gaveta, farda no sonho e boleto na realidade, qualquer assinatura tem cheiro de vitória. O problema é que, em política, até notícia boa precisa passar pelo raio X da desconfiança.

A partir do dia 4 de julho, entrou em campo o defeso eleitoral, esse juiz sisudo que não gosta de festa, foguete nem palanque fantasiado de gestão. A regra geral passou a limitar nomeações, contratações e atos de pessoal, justamente para impedir que a máquina pública vire cabo eleitoral de luxo. E é aí que a cena ganha tempero sergipano. O governo teve tempo, teve calendário, teve concurso, teve cadastro, teve demanda, teve cobrança e teve expectativa. Mas resolveu fazer a grande arrumação da casa na véspera do cadeado eleitoral. Parece aquele estudante que passa o ano inteiro dizendo que vai estudar e, na noite anterior à prova, compra marca texto, café, energético e ainda posta foto dizendo que está focado.

No caso da Polícia Militar, a notícia tem peso emocional ainda maior. São 435 excedentes que ouviram do governo a promessa de chamamento a partir de novembro, depois das eleições, naturalmente depois do primeiro turno e também depois de eventual segundo turno. É uma promessa que anima, mas ainda não veste ninguém de farda. Entre o anúncio e o curso existe Diário Oficial, existe ato formal, existe matrícula, existe etapa administrativa, existe orçamento, existe governo funcionando e existe, sobretudo, realidade. O candidato excedente não pode ser tratado como plateia de comício administrativo. Ele não quer aplauso, quer convocação. Não quer legenda bonita em rede social, quer data, nome, documento e sala de aula no curso de formação.

E é bom deixar claro um ponto que a política muitas vezes finge esquecer quando sobe no palanque: o Estado é um só. Governo passa, Estado permanece. A promessa feita pela administração pública não pode ser vendida como gentileza pessoal, como se o governador estivesse distribuindo favor com a própria carteira. Se os 435 excedentes da Polícia Militar forem efetivamente necessários, se há legalidade, se há concurso válido, se há interesse público e se há previsão administrativa, qualquer governo terá o dever político e institucional de avançar. Se Fábio vencer, que cumpra. Se Fábio perder, quem assumir não herda apenas gabinete, retrato na parede e ar-condicionado funcionando. Herda também responsabilidade, continuidade administrativa e compromisso público.

O que incomoda não é chamar servidor. Chamar aprovado em concurso é medida republicana, necessária e, em muitos casos, urgente. O que incomoda é o teatro do último minuto, essa mania de transformar planejamento em cena de suspense. A segurança pública precisa de efetivo, a perícia precisa de gente, a Emdagro precisa de técnico no campo, a comunicação pública precisa de quadro permanente. Nada disso nasceu ontem. Não foi na madrugada do dia 3 para o dia 4 que Sergipe descobriu que precisava de policial, perito, agrônomo, médico veterinário, técnico agrícola e servidor de comunicação. A necessidade já estava ali, batendo continência no pátio, esperando despacho na repartição e pedindo passagem no interior.

No fim das contas, a sociedade sergipana deve comemorar cada convocação, mas sem desligar o desconfiômetro. O governo cumpriu parte do que anunciou antes do limite eleitoral, mas deixou a maior promessa, a dos 435 excedentes da PMSE, pendurada em novembro, como bilhete colado na geladeira da política. Pode dar certo, tomara que dê, porque quem ganha é Sergipe. Mas promessa em ano eleitoral é igual guarda-chuva em procissão, todo mundo mostra antes da chuva, mas só depois se descobre quem realmente protege. Agora a cobrança precisa sair do aplauso e ir para o calendário. Porque anúncio emociona, mas é o Diário Oficial que nomeia. E nessa história, meu amigo, print de rede social não substitui posse, nem vídeo bonito bota policial na rua.

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