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Editorial: A dor não cabe no corredor

Há uma cena que deveria fazer o Palácio de Despachos desligar o ar-condicionado e abrir as portas do Hospital de Urgências de Sergipe. Um homem com a camisa do Flamengo, no corredor do Huse, aponta para outros pacientes e levanta a voz. Não está reclamando de um impedimento no Maracanã. Está denunciando a falta de condições que diz encontrar no lugar onde as pessoas vão para tentar continuar vivas. “Todo esse pessoal aqui, todo esse pessoal aqui no corredor”, protesta. Fala da dificuldade para conseguir uma cadeira, de problemas com água, de equipamentos deteriorados e até da falta de copos descartáveis. São alegações de quem estava ali, que precisam ser checadas pela direção, mas cujo apelo não pode ser arquivado como mera reclamação. A camisa rubro-negra chama a atenção; o que deveria fazer o governo baixar os olhos é a dignidade do homem que a veste. Na arquibancada, uma derrota dura noventa minutos. Na maca de um hospital, a espera pode consumir noites inteiras. E ninguém compra ingresso para esse sofrimento.

O paciente não pediu camarote, tapete vermelho ou visita de autoridade cercada de assessores. Pediu respeito. No relato, também afirma que a assistência esbarra na falta de UTI: “quando tem médico, não tem UTI”. É uma frase brutal porque resume a angústia de quem vê a solução sempre depender de mais uma porta que não se abre. Um profissional de saúde ouvido pelo portal questiona a presença de pacientes clínicos por longos períodos nos corredores e cobra uma rede de retaguarda, com leitos de internação, observação e cuidado contínuo. Quantas pessoas estão hoje nessas condições? Qual o tempo médio de espera? Que estrutura existe para transferi-las com segurança? No último dia 28 de outubro, a deputada Linda Brasil levou à Assembleia relatos de sobrecarga da enfermagem no Huse. São denúncias que exigem investigação, resposta e providência, não uma disputa de releases. O governo pode ter uma apresentação vistosa para cada indicador. O homem do corredor tem uma pergunta muito menor e muito mais difícil: onde ele pode esperar sem perder o pouco de conforto que lhe resta?

A contradição machuca. Um médico sergipano descreve a experiência de participar de cirurgia fetal de alta complexidade, realizada ainda durante a gestação, para proteger uma vida em formação. A medicina chega ao útero; a administração pública ainda precisa explicar por que não consegue assegurar acolhimento básico no corredor. É como construir uma nave espacial e esquecer a escada de entrada. No Hospital do Câncer Governador Marcelo Déda, o Estado informa milhares de atendimentos, inclusive quimioterapia e cuidados paliativos, e esse serviço existe e merece reconhecimento. Mas isso não encerra a cobrança: quais alas estão abertas, quantos leitos funcionam, quando a implantação estará completa e qual é a retaguarda para o paciente com dor intensa ou doença crônica? O câncer não pergunta em quem a pessoa votou, nem consulta a agenda do governador. Marcelo Déda conheceu a doença na própria vida. Invocar seu nome numa fachada deve significar, acima de tudo, entregar cuidado a quem não dispõe de tempo para esperar pela próxima cerimônia.

Há ainda uma fila invisível, feita de notas fiscais, equipes exaustas e hospitais tentando manter as portas abertas. O Ministério Público registrou em outubro que, segundo a direção do Hospital São José, havia aproximadamente R$ 9 milhões em repasses públicos pendentes. O médico ouvido pelo portal também relata atrasos relacionados a serviços conveniados e procedimentos cardíacos, alegações cujos períodos e valores específicos precisam ser comprovados. Ao mesmo tempo, projetos para autorizar empréstimos estaduais da ordem de R$ 1,4 bilhão ganharam o noticiário. É indispensável não confundir autorização de crédito com dinheiro em caixa, nem imaginar que toda operação possa pagar despesas de saúde. Mas é perfeitamente legítimo perguntar ao governador Fábio Mitidieri quais são as prioridades, o cronograma para regularizar obrigações e o plano para ampliar leitos clínicos e equipes. Porque o Estado não pode tratar a dedicação de médicos, enfermeiros e técnicos como financiamento gratuito da própria ineficiência. Vocação salva vidas. Não substitui orçamento, gestão nem pagamento em dia.

O governador Fábio Mitidieri e o ex-secretário da Saúde Cláudio Mitidieri devem explicações objetivas sobre as decisões e os resultados de suas respectivas responsabilidades. Não basta dizer que a saúde sempre teve problemas. A repetição da indignidade não a transforma em tradição sergipana, muito menos em patrimônio imaterial. A pergunta é o que será feito agora, com prazo, custo, responsáveis e metas que qualquer cidadão possa conferir. O homem de camisa do Flamengo não é figurante de um vídeo viral; é alguém reivindicando o direito de ser visto, ouvido e tratado como pessoa. Amanhã pode ser o trabalhador que pegou dois ônibus para chegar ao Huse, a avó que criou a família inteira, a enfermeira que atende os outros e depois precisa de atendimento. Governo passa. Dor fica na memória do corpo. Que as autoridades visitem esses corredores sem comitiva e sem roteiro, escutem as pessoas sem pedir que sorriam para a fotografia e regressem com soluções. Porque a pergunta mais triste de Sergipe não é quanto custa um novo hospital. É quanto vale, para quem governa, a dignidade de quem espera no corredor.

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