Governador Fábio Mitidieri: entre empréstimos bilionários, esgoto a céu aberto e o silêncio que grita nas torneiras vazias
Se Sergipe fosse uma represa, o povo já estaria morando no fundo. E não por conta da água porque essa está faltando. Mas pelo acúmulo de contradições, omissões e um modelo de gestão que parece ter trocado o planejamento pelo improviso, a escuta pela blindagem e o povo por um boletim de marketing.
Nas últimas semanas, o governo de Fábio Mitidieri enfrentou uma tempestade de críticas. E não foi por acaso. Quando se analisa com lupa, ou simplesmente quando se abre uma torneira, o que se vê é um governo que está emprestando muito, explicando pouco e entregando quase nada. A soma das dívidas solicitadas só esse ano supera R$ 1,5 bilhão. Isso mesmo: bilhão. Três novos empréstimos, somados aos outros R$ 1 bilhão contratados em 2023 e 2024, e aos R$ 4,5 bilhões da “venda” da DESO.
Os pedidos de empréstimo chegaram à Assembleia Legislativa como quem tenta pegar um voo de última hora: na pressa, no empurra-empurra e sem malas organizadas. Os deputados aprovaram a toque de caixa. Mas a sociedade que vai pagar a conta, não foi sequer convidada a entender o que está sendo feito com seu futuro.
A justificativa é sempre a mesma: “investimentos em infraestrutura, sustentabilidade fiscal, programa de demissão voluntária”. Mas não se diz quais estradas, quais hospitais, quais escolas. Não se explica qual o plano de impacto, qual retorno esperado, quais os prazos, nem se haverá transparência na execução. Parece uma cartela de palavras-chave do Excel jogada no microfone.
E o mais trágico é o seguinte: se o Estado está arrecadando bem, como disse a própria secretária da Fazenda, por que precisa se endividar tanto? E se o discurso é de valorização do funcionalismo público, por que criar um programa de demissão voluntária? Como se promove concurso e demissão ao mesmo tempo? Isso não é gestão, é esquizofrenia fiscal.
Mas nada resume melhor o estado da gestão FM do que a crise hídrica e sanitária vivida sob a batuta da Iguá Saneamento. Desde que a empresa assumiu parte dos serviços da DESO, a água sumiu, os buracos brotaram e o esgoto virou parte do cenário urbano. Aracaju virou filme de tragédia sanitária: rua com esgoto estourado há mais de 11 dias no bairro Jardins, fedentina crônica em pontos de ônibus, condomínios inteiros respirando fezes. Literalmente.
A população está há dias sem uma gota nas torneiras em municípios do interior, enquanto ouve do governo que os investimentos da Iguá só trarão resultados em “médio e longo prazos”. Aparentemente, quem fez esse contrato esqueceu que o povo sente sede no curto prazo.
E o mais revoltante: o serviço é pago. Caro. E está pior do que antes. A sensação geral é de que a DESO, mesmo sendo uma empresa pública lenta e cheia de problemas, ao menos resolvia as emergências com mais eficiência. Com a Iguá, o contribuinte paga pelo balde, pela bomba d’água e pela paciência porque o serviço simplesmente não chega.
O Ministério Público Estadual e o Ministério Público Federal precisam urgentemente agir, não para embargar a concessão, mas para exigir explicações concretas, cronogramas reais e cumprimento imediato do contrato. Não se pode terceirizar o básico e lavar as mãos com a desculpa do “contrato de 35 anos”. O sergipano não quer saber de cronograma de fundo de investimento. Ele quer abrir a torneira e ver água, não poeira.
Enquanto isso, no mundo paralelo da política, o governador tenta equilibrar alianças e desafetos como quem joga dominó em terreno baldio. A recusa pública em reaproximar-se de Rogério Carvalho, ainda que compreensível do ponto de vista pessoal, tem menos a ver com mágoas de campanha e mais a ver com cálculo eleitoral. O barquinho governista já tem André Moura, Alessandro Vieira, Márcio Macedo e Edvaldo Nogueira disputando o espaço para o Senado. E como em toda embarcação que lota, falta colete salva-vidas para tanto nome.
Rogério seria um estorvo político e, se fosse aceito de volta, poderia provocar uma debandada. Mas o recado dado a Lula e ao PT é claro: “ele que vá procurar outro palanque”. O problema? Quando se governa um estado, o interesse público precisa pesar mais do que as mágoas privadas. E saber articular, dialogar e reconciliar faz parte do ofício. Não é bonito ver um governador agir como quem guarda ressentimento em pote de maionese.
E como se o cenário não estivesse congestionado o suficiente, o governo ainda tenta justificar um investimento tímido na chamada “Copa Governador do Estado”, colocando apenas R$ 2 milhões em prêmios e gerando mais piada do que entusiasmo. Se a ideia era mobilizar o futebol sergipano, faltou bola, juiz e gramado. A desorganização é tanta que há clubes cogitando boicotar a competição. Não é Copa do Estado, é pelada institucional.
Diante disso tudo, o que falta ao governo Mitidieri não é dinheiro, é coragem de enfrentar os problemas de frente, sem escudos, sem frase pronta, sem terceirização da culpa. É fácil dizer que o Estado está “modernizando a gestão”, “atraindo investimentos” e “criando futuro”. Difícil mesmo é justificar por que os canos estão secos, as ruas estão sujas, a oposição cresce e o povo começa a desconfiar.
Mas como todo editorial que se preze, aqui não termina com pancada, termina com apelo. Governador, ainda há tempo. Tempo de virar o jogo. De parar de empurrar empréstimo sem projeto. De exigir da Iguá o que ela prometeu e não entregou. De ouvir o povo, de verdade, e não apenas os aliados. De reverter a imagem de um governo que tem crédito no banco, mas vem perdendo crédito nas ruas. Porque no fim, política se mede pelo que se fala, sim. Mas se decide mesmo é pelo que se entrega. E o povo de Sergipe, este povo cansado de desculpa, sedento de solução, já não bebe mais em fonte rasa.





Uma resposta
Nitidiere,ñ lembra que foi eleito com os votos dá direita conservador Bolsonarista? Qdo ficaram revoltados com Valmir do Francisquinho? Kkkkkkk Sabe qdo ele vai ser reeleito? Nunca mais!