A história da suposta sabotagem no sistema de abastecimento da Zona de Expansão de Aracaju começa como roteiro de filme policial e termina, até agora, como novela sem último capítulo. A Iguá informou, em abril, que teria encontrado sinais de violação em registros essenciais após o rompimento de uma adutora. A Polícia Civil foi acionada. A palavra “sabotagem” entrou no noticiário com a força de quem chega chutando a porta. O problema é que, passadas semanas, a população continua fazendo a pergunta mais simples do mundo: sabotagem de quem, comprovada por quem, com qual laudo e em qual conclusão?
Porque quando se fala em crime, existe uma regra básica: local de possível crime deve ser preservado. Não é cenário de selfie, não é corredor de shopping, não é visita guiada de curiosos. Em tese, perícia precisa de isolamento, cadeia de custódia, registro técnico e controle de acesso. Mas o que se viu, segundo relatos públicos e imagens que circularam, foi imprensa entrando, gente opinando, radialista analisando como perito de WhatsApp e o caso virando espetáculo antes mesmo de virar conclusão. Se era crime, por que o local virou passarela? Se era sabotagem, onde está o laudo? Se era tão grave, por que até hoje o cidadão não recebeu a resposta completa?
A população do Mosqueiro, Robalo, Santa Maria, Aruana, Gameleira e outras áreas afetadas não quer romance policial. Quer água. E água na torneira, não em coletiva. O que se vendeu como possível sabotagem acabou funcionando, na prática, como guarda-chuva narrativo para uma crise que durou muito mais do que deveria. Se o problema fosse apenas uma violação pontual de registro, por que a normalização demorou tanto? Por que moradores passaram dias, em alguns locais mais de uma semana, convivendo com torneira seca, balde na mão e paciência indo embora pelo ralo?
O Sindisan contestou a tese da sabotagem e levantou dúvidas técnicas importantes. Disse que a região é abastecida por mais de uma fonte e que atribuir todo o caos a um único ponto violado seria, no mínimo, uma explicação pequena demais para um problema grande demais. E aqui está o centro da questão: ou houve sabotagem, e então o Estado deve dizer quem fez, como fez, quando fez e qual foi a conclusão da investigação; ou não houve, e então alguém usou uma palavra gravíssima para cobrir falha operacional, manutenção precária ou incapacidade de resposta. Nos dois cenários, o silêncio é inaceitável.
A concessão do saneamento em Sergipe foi vendida como modernização, eficiência e salto de qualidade. Mas, para o cidadão que abre a torneira e escuta apenas o som triste do ar passando pelo cano, modernização parece piada de mau gosto. É o futuro chegando com carro-pipa. É a eficiência anunciada em PowerPoint e desmentida pela pia da cozinha. O governo Fábio Mitidieri precisa entender que falta d’água não é detalhe administrativo. É desgaste político, social e humano. Não tem marketing que resista a uma casa sem água.
E o problema não está restrito ao Mosqueiro. A Grande Aracaju ainda convive com reclamações recorrentes em regiões como Socorro, Parque dos Faróis, Conjunto Jardim e outras localidades. No interior, municípios do Agreste e do Centro-Sul também sofrem com interrupções, abastecimento irregular e a velha sensação de que a água virou visitante: aparece quando quer, vai embora sem avisar e ainda deixa a conta para o morador pagar. A população já não sabe se mora em Sergipe ou em um experimento de resistência doméstica.
A pergunta que precisa ser feita, com todas as letras, é esta: quem está fiscalizando de verdade? Porque concessão pública não pode virar terceirização da desculpa. O governo não pode simplesmente entregar o serviço, lavar as mãos e dizer que agora o problema é da empresa. Água é direito básico, é saúde pública, é dignidade. Quando falta água, falta banho, falta comida, falta higiene, falta escola funcionando direito, falta vida normal. E quando a resposta oficial vira “vamos apurar”, mas a apuração nunca aparece, a confiança também seca.
Sergipe precisa de respostas. Onde está o inquérito? Houve perícia da Polícia Científica? Qual foi a conclusão? O local foi preservado? Quem teve acesso? A suposta sabotagem foi confirmada ou era apenas uma narrativa conveniente no meio do caos? Domingo é dia de reflexão, mas também deveria ser dia de cobrança. Porque a água pode até faltar na torneira, mas transparência não pode faltar no governo. E se a tal sabotagem evaporou sem conclusão pública, talvez o maior vazamento não tenha sido na adutora. Talvez tenha sido na credibilidade.




