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Editorial: Antes de condenar o motor é bom deixar o carro amaciar

Há debates que exigem menos gritaria e mais visão de conjunto. A discussão sobre a Iguá em Sergipe é um desses casos. A empresa virou pedra no sapato do governo Fábio Mitidieri para alguns setores da imprensa apressada. Mas quem olha o tema com lupa de longo alcance percebe que o cenário é bem mais complexo do que o imediatismo das manchetes sugere.

Na verdade, não existe concessão de saneamento que funcione como mágica. Água não brota de decreto. Rede não se ajusta em passe de mágica. Cada Estado tem sua própria geografia sua própria lógica de captação e suas dores históricas. A Iguá chegou com experiência nacional, mas precisou começar do começo. Conhecer o terreno mapear gargalos entender sistemas antigos e conviver com problemas que não nasceram com a concessão, mas que agora aparecem como se fossem novidade.

Há falhas. Há interrupções. Há reclamações. Tudo isso existe. Mas também existe algo que raramente vira manchete. Trabalho. Ajuste. Resposta. Multa aplicada. Fiscalização ativa. A agência reguladora já penalizou a Iguá em milhões de reais. Isso não é omissão. Isso é Estado funcionando.

O governador poderia ter feito o caminho mais confortável. Poderia ter empurrado a decisão para depois da eleição. Poderia ter escolhido a paz eleitoral em vez da turbulência administrativa. Preferiu enfrentar. Preferiu assumir o desgaste. Preferiu comprar uma briga que nenhum gestor compra se não estiver convencido de que ela é necessária. Isso diz muito sobre estilo de governo. Quem governa apenas para aplausos evita obras estruturais. Quem governa para resolver problemas encara o barulho.

O discurso do rompimento fácil soa bonito em palanque. Mas é raso na vida real. Romper um contrato dessa dimensão não é apertar um botão. Envolve bilhões. Envolve municípios. Envolve devoluções impensáveis. Envolve segurança jurídica. Uma quebra contratual dessa natureza enviaria ao país uma mensagem perigosa. A de que Sergipe não honra contratos. A de que a cada troca de gestor tudo pode ser desfeito. Investidor nenhum entra num ambiente assim.

Encaremos que existe problema. Existe oportunismo também. Existe muita gente tentando transformar saneamento em bandeira eleitoral. Problemas antigos reaparecem com roupagem nova. Tudo vira culpa da concessão. Tudo vira slogan. Tudo vira atalho político. Mas decisões desse porte não são políticas. São jurídicas. São técnicas. São demoradas. E precisam de responsabilidade.

Enquanto isso a Iguá segue respondendo. Ajustando. Dialogando. Seu diretor tem sido acessível. Tem aparecido. Tem falado. Tem recebido crítica sem se esconder. Isso também conta. Empresa que some não melhora. Empresa que encara tende a engrenar. A Deso por sua vez segue com serenidade. Sem histeria. Sem sabotagem. Cumprindo seu papel no novo arranjo. Não há guerra institucional. Há transição. Há aprendizado. Há engrenagem começando a girar.

Obra grande não nasce pronta. Carro novo precisa amaciar. Motor esquenta. Consumo oscila. Depois entra no ritmo. Saneamento funciona da mesma forma. Exige tempo. Exige paciência. Exige fiscalização. E exige coragem política para sustentar decisões impopulares no curto prazo.

Fábio Mitidieri poderia ter escolhido o conforto. Escolheu o enfrentamento. Isso não resolve tudo de imediato. Mas sinaliza algo raro na política atual. Compromisso com solução estrutural e não com maquiagem temporária. Dar a César o que é de César não é bajulação. É honestidade analítica. O debate sobre a Iguá precisa sair do grito e entrar no método. O tempo dirá se os ajustes foram suficientes. Mas até aqui o caminho é de correção e não de fuga. E em gestão pública isso faz toda a diferença.

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