A política sergipana entregou esta semana um daqueles roteiros que misturam drama, ironia e uma pitada generosa de conveniência. De um lado, Belivaldo Chagas, que virou alvo de ataques por ter feito um movimento político considerado “inconveniente” por alguns. Do outro, Rogério Carvalho, que conseguiu fazer o impossível na política brasileira, criticar duramente um governo e, pouco depois, aparecer no mesmo ambiente político sem perder o tom de autoridade.
Belivaldo não mudou de posição por capricho ou vaidade. O movimento dele é simples e direto, quase didático. A filha, Priscila Chagas Filizola, é candidata a vice na chapa de Valmir de Francisquinho. Ponto. Não é teoria, não é estratégia mirabolante, não é jogo de bastidor. É decisão familiar com consequência política. E o próprio Belivaldo deixou isso claro com a tranquilidade de quem não precisa inventar narrativa para justificar escolha.
Aliás, convém lembrar um detalhe que muita gente fingiu não ver. Priscila não caiu de paraquedas. Trabalhou, se movimentou, construiu espaço próprio e mostrou que tem CPF político. Não é apenas filha de ex-governador, nem extensão de sobrenome. Tem atuação, presença e resultado. E quando isso acontece, a decisão deixa de ser herança e passa a ser protagonismo. Isso muda completamente a leitura.
Já Rogério Carvalho protagoniza outro tipo de movimento, mais sofisticado, mais maleável, mais… adaptável. Chamou o governo de corrupto, fez críticas duras, elevou o tom, colocou o dedo na ferida. Até aí, política. O problema é que, pouco depois, aparece orbitando o mesmo ambiente político com a naturalidade de quem nunca disse o que disse. A política brasileira até aceita contradição. Mas essa rapidez impressiona.
E não para por aí. Quando questionado sobre alinhamento, Rogério tratou de colocar as coisas no devido lugar. Disse, sem rodeio, que está no palanque de Lula, não no de Fábio Mitidieri. Traduzindo para o bom português político, o palanque estadual vira apenas instrumento. Uma espécie de estrutura de apoio. Não é parceria. É conveniência eleitoral. E isso, para quem presta atenção, diz muito mais do que qualquer discurso.
Enquanto isso, Belivaldo segue com um estilo cada vez mais raro. Direto. Sem rodeio. Sem maquiagem discursiva. Pode até desagradar. Pode até incomodar. Mas é previsível. E na política, previsibilidade virou luxo. Ele disse sim quando quis dizer sim. Disse não quando quis dizer não. Não precisou reinterpretar suas próprias falas dias depois. Isso, hoje, já é quase revolucionário.
O contraste entre os dois estilos é quase didático. De um lado, Belivaldo que assume suas decisões mesmo sob pressão. Do outro, Rogério que ajusta o discurso conforme o vento sopra. Não se trata de certo ou errado. Trata-se de coerência versus conveniência. E o eleitor, mesmo sem aprofundar análise, percebe essa diferença com uma facilidade impressionante.
No fim das contas, a pergunta que fica é simples e incômoda. O que pesa mais na política atual, a clareza de posição ou a habilidade de adaptação? Sergipe começa a testar essa resposta na prática. E, no meio desse cenário, uma coisa precisa ficar muito clara. A candidata a vice não é Belivaldo. É Priscila. A decisão é dela. E talvez seja exatamente isso que mais incomoda quem ainda não entendeu que o jogo mudou.




