Itabaiana, a capital nacional dos caminhoneiros, foi palco de um gesto que mistura simbolismo político e impacto social direto: o lançamento da CNH Caminhoneiro pelo governador Fábio Mitidieri. Não foi apenas uma cerimônia, foi um recado e dos fortes. Ao oferecer até mil habilitações gratuitas por ano nas categorias C e E, bancando exames médicos, cursos teóricos, aulas práticas e provas, o governo abre portas para trabalhadores historicamente impedidos de dar um passo adiante na profissão.
Não se trata de um programa qualquer. A escolha de Itabaiana foi cirúrgica. Ali, cada família tem um caminhoneiro, um parente na estrada ou um caminhão na porta. O governador sabe disso e, quando veste o chapéu do Agreste, lembrando João Alves Filho e figuras históricas da região, ele não faz folclore, ele fala diretamente ao inconsciente coletivo da cidade. É política simbólica, é conexão emocional com o eleitorado. Há quem veja no chapéu um detalhe; mas, em Sergipe, chapéu não é acessório: é senha cultural. Fábio já entendeu o jogo.
E por falar em senha, o governador não deixou de entregar sinais bem claros no campo político. A primeira “chinelada” foi dada há dois meses, quando prometeu publicamente apoiar Anderson das Canas na disputa pela prefeitura de Itabaiana. O recado era cristalino: Mitidieri não teme medir forças com Valmir de Francisquinho, hoje seu maior adversário no Estado. A segunda chinelada veio com a própria CNH Caminhoneiro, um programa lançado no quintal eleitoral de Valmir, mas com alcance estadual. Política, aqui, não é só discurso; é território, é ocupação de espaço, é quem dita a pauta.
Nesse tabuleiro, os caminhoneiros são peça-chave. Em Itabaiana, não se fala em festa sem carreata, nem em economia sem caminhão. Ao colocar os caminhoneiros no centro da cena, Fábio não apenas se aproxima de um grupo estratégico, mas também acena a uma categoria que há décadas sustenta parte do PIB do agreste sergipano. A CNH gratuita, nesse contexto, deixa de ser um papel plastificado e passa a ser símbolo de inclusão social e de respeito a uma profissão que move o Brasil.
O impacto social também é real: caminhoneiros como Josenito Jesus celebram a chance de “mudar de vida”, pedreiros como Leonardo Souza veem a oportunidade de sustentar a família com uma nova profissão, e mulheres como Thaiara Leal descobrem que a estrada também pode ser delas. São histórias humanas que traduzem em carne e osso a frieza dos números. Ao tornar a CNH acessível, o governo não entrega apenas um documento: entrega dignidade.
A iniciativa vem acompanhada de investimentos expressivos na saúde, especialmente no Hospital Regional de Itabaiana, que ganhará novos equipamentos de ressonância magnética, endoscopia e colonoscopia, somando mais de R$ 11 milhões. Soma-se a isso programas como o Opera Sergipe, que já realizou quase mil cirurgias, e o Enxerga Sergipe, com centenas de procedimentos oftalmológicos. São políticas que, além de números, produzem a sensação concreta de que o interior do estado não é esquecido.
Mas é justamente nesse contraste entre ações concretas e discursos oportunistas que entra a crítica necessária. Deputados como Luizão Dona Trump, personagem quase folclórico do agreste político sergipano e Luciano Bispo, veterano das artimanhas parlamentares, se apressaram em anunciar “emendas” de R$ 500 mil cada para o programa. O problema não está na emenda em si, mas na encenação que a acompanha.
É aqui que se impõe a explicação didática: emenda parlamentar não é dinheiro do bolso do deputado. É recurso público, retirado do orçamento geral, fruto do imposto pago pelo povo. O parlamentar apenas indica o destino da verba. Não é caridade, não é doação, não é gesto pessoal. Portanto, quando Luciano e Luizão sobem ao palanque e anunciam que “colocaram” R$ 500 mil, vendem uma meia verdade perigosa: sugerem ao povo que tiraram do próprio patrimônio para ajudar. Não tiraram. Apenas carimbaram o uso de um dinheiro que já era público. É como se alguém, ao receber seu salário, dissesse que fez um “favor” ao pagar a conta de luz. Não há favor nenhum: há obrigação.
E se é para falar de favor, sejamos francos: favor seria se Luciano Bispo e Luizão Dona Trump assinassem um cheque pessoal de R$ 500 mil cada e entregassem ao Detran. Aí, sim, caberia festa, faixa e discurso. Mas posar de benfeitores com dinheiro alheio é teatro político, daqueles que já não deveriam mais enganar ninguém. O mérito do programa não é dos deputados, mas do Estado que decidiu investir em sua gente.
Assim, cabe diferenciar: Mitidieri entrega, os deputados encenam. Um governa, com acertos e erros, mas entregando resultados concretos em saúde, educação, segurança e inclusão. Os outros apenas disputam holofotes, vendendo como generosidade o que não passa de obrigação institucional.
No fim, o aplauso verdadeiro não deve se perder em palanques nem em discursos ensaiados: ele pertence ao povo de Itabaiana, que agora terá acesso a novas oportunidades, e ao governo, que soube agir com estratégia e responsabilidade social. Já as palmas fáceis, aquelas que alguns deputados tanto procuram, precisam ser negadas sem hesitação. Porque a verdade é cristalina: emenda parlamentar não é presente, é dever; não é ato de generosidade, é obrigação.




