Dizem que política é como feira: todo mundo vende alguma coisa e, de vez em quando, alguém sai no prejuízo. Pois bem, no Mercado Augusto Franco, em Aracaju, a metáfora virou cena: rabada e cuscuz, risada e ironia no cardápio. No último fim de semana, o aroma do café disputava espaço com o cheiro da comemoração: o PT festejava a (quase certa) queda de Jeco da Codevasf como quem celebra gol em final de campeonato. Depois de tanto tempo em campo sem balançar a rede, o grito de “é nosso” soou mais alto que o barulho das panelas e o chamado de Cheirosa na banca de legumes.
Thomas Jefferson, o Jeco, presidente da Codevasf e indicado de André Moura, já virou carta fora do baralho. O governo federal puxou o fio do bordado para refazer o tapete político com cores novas, ou, ao menos, novas legendas. André Moura, político calejado, fez o que veteranos fazem: sorriu, acenou e disse que entendia o jogo. Sua serenidade é de quem já viu muitas mesas tombarem e aprendeu que cadeira cativa amanhã pode virar banco vazio.
Mas o que mais impressiona não é a queda em si, e sim a reação. No epicentro do jogo, o Mercado Augusto Franco, não havia pesar. Havia festa. Era uma celebração misturando política e tapioca, discurso e lapada de cachaça. O PT, embriagado pelo retorno ao espaço, sorria antes de brindar. E entre um gole de café e outro, o nome de Silvio Santos (não o do Baú, mas o do PT) já circulava como sucessor natural, abençoado por Rogério Carvalho, o senador que decidiu reaprender o gosto de ser ouvido em Brasília.
Silvio Santos, figura conhecida no meio político petista local, já vinha sendo cotado para assumir a superintendência da Codevasf em Sergipe. Ele foi pleiteado por Rogério Carvalho e João Daniel em disputas anteriores, inclusive quando André Moura venceu a disputa para emplacar Jeco. Se vier a assumir, Silvio Santos representará não apenas um cargo, mas a consolidação de uma agenda local petista revigorada, uma intervenção direta do PT nas engrenagens estaduais.
E não é coincidência que a aprovação de seu nome pareça ter passagem livre junto a Rogério. Há indícios de afinidade política e pessoal. Rogério, em suas redes sociais, já faz referências a “laços”, “amizades” e “companheirismo” que ressoam além do mero discurso institucional. Em tempos de redes e escuta pública, amizades genuínas viram capital político e por trás da indicação de Silvio pode estar um cálculo de lealdades forjadas, bombardeadas e reagrupadas.
É curioso: o mesmo mercado que vende farinha, legumes, frutas e carne-seca agora comercializa narrativas políticas. Um local onde alianças se selam entre rabada e pastel de camarão, onde os bastidores de Brasília exalam cheiro de guisado e som de sanfona. O Mercado Augusto Franco virou o Congresso de chinelo e camiseta. E ali se declarou, de modo tácito, o fim do reinado de Jeco: não apenas uma queda, mas a transição de um santo do União Brasil para um beato do PT.
Mas precisamos ver além da troca de nomes. A Codevasf não é gabinete de figura simbólica: é cofre de obras, verbas regionais, contratos e redes de poder. Quem dirige, influencia prefeitos e mobiliza lealdades. A queda de Jeco é redistribuição de poder e o governo Lula, atento aos Estados estratégicos, inicia a faxina: onde havia indícios de insubordinação partidária, entrará representante da base. É a versão moderna do “quem está comigo, tem Codevasf”.
André Moura, por sua vez, domina esse rito. Político de sangue frio, sabe que o tombo de hoje pode ser convite para jantar amanhã. Moura joga em 4D, enquanto muitos ainda discutem regras. Ao aceitar sem alarde a saída de seu indicado, ele transmite não rendição, mas estratégia. Quem se desespera cedo perde o jogo antes do fim.
E, como observador externo, não dá para não rir. Porque no Brasil até a troca de comando na Codevasf vira enredo de novela: o herói que cai com compostura, o vilão que vira salvador, o público que aplaude e o narrador que tenta se disfarçar de isento. O riso, aqui, não é desdém: é reconhecimento. A plateia aprendeu a rir do absurdo porque o absurdo tornou-se rotina.
Que venha, então, o novo comandante da Codevasf. Que se ajeitem as cadeiras, se sirva o café e que sigamos espectadores da mais antiga tradição nacional: a dança das cadeiras com trilha sonora de forró e cheiro de poder no ar. Porque em Sergipe e no Brasil, a política pode até trocar de partido, mas jamais sai de mercado.




