PUBLICIDADE

Editorial | De mulher para mulher: quando a oposição flerta com um tabu histórico

Nos bastidores da oposição sergipana, o assunto não corre em microfone aberto. Corre em cochicho. Não vira nota oficial, vira conversa de corredor. Ainda não é anúncio, é hipótese. Ainda não é chapa, é ensaio. Mas cresce uma corrente que, sem sofismar, começa a desenhar uma possibilidade tão improvável quanto poderosa: Emília Corrêa candidata ao governo do Estado, com Priscila Felizola na vice. Duas mulheres. Sergipe nunca teve uma. Imagine duas. O choque seria político, simbólico e eleitoral.

Não se trata de delírio. Trata-se de leitura de cenário. Emília chega a esse debate com currículo recente e visível. Eleita com 57,46% dos votos, a primeira mulher a comandar Aracaju, abriu o mandato com decisões de gestão que contam ponto fora da bolha. Avançou na convocação do concurso do magistério, projetou ampliação de creches e climatização de escolas, mexeu na estrutura da saúde com intervenções no Nestor Piva e no Fernando Franco, requalificou a Maternidade Lourdes Nogueira, valorizou servidores com reestruturações aguardadas há décadas, organizou o planejamento estratégico da prefeitura e levou Aracaju a um patamar inédito de transparência, com selo diamante nacional. Soma-se a isso a presidência estadual do Republicanos, que ampliou sua capacidade de articulação e lhe deu estatura política para além da capital.

Do outro lado da hipótese, Priscila Felizola não entra como figurante. À frente do Sebrae Sergipe, construiu uma gestão marcada por interiorização, parcerias com o Estado, foco em capacitação, apoio direto aos pequenos negócios e eventos que deram visibilidade ao empreendedorismo local. Foi a primeira mulher a comandar a instituição no Estado e, desde então, tratou o Sebrae menos como vitrine e mais como ferramenta. Priscila representa o elo com o setor produtivo, com quem gera emprego, renda e oxigênio econômico fora do circuito do funcionalismo. Como vice, agregaria técnica, rede e discurso de desenvolvimento.

A força dessa eventual chapa não estaria apenas no ineditismo. Estaria no arco de apoios possíveis. Emília, se avançasse, chegaria com a bênção de Valmir de Francisquinho, o pragmatismo de Edvan Amorim e a convergência natural de Rodrigo Valadares, que já a colocou publicamente como sua primeira opção ao Senado. Priscila, por sua vez, atrairia o peso institucional do ex-governador Belivaldo Chagas e o entorno familiar e técnico que conhece o Estado por dentro. Não é pouca coisa.

Há, claro, entraves. O principal passa pela vice-prefeitura de Aracaju e pela conversa necessária com Ricardo Marques e com a direita organizada. Política não é poesia; é engenharia. Ajustes seriam indispensáveis. E convém repetir, em letras garrafais: tudo isso é especulação. Não há anúncio, não há pacto selado, não há foto oficial. Há leitura. Há hipótese. Há o “e se”.

Nesse tabuleiro, o maestro segue trabalhando longe dos refletores. Edvan Amorim monta o time com paciência cirúrgica, testa encaixes, mede resistências e observa o tempo certo de cada movimento. A oposição, hoje, dispõe de alternativas reais e competitivas como Eduardo Amorim, Thiago de Joaldo e André Davi. Todos têm densidade eleitoral, todos têm espaço no jogo e todos seguem no radar. Uma eventual chapa Emília–Priscila não elimina nomes nem fecha portas; ela reorganiza o tabuleiro, muda o centro de gravidade e obriga todos a repensarem estratégia.

Se acontecer, será uma ruptura histórica pelo simbolismo e pelo projeto que representa. Não apenas pelo ineditismo de gênero, mas pela possibilidade de um novo modelo político, que combina gestão comprovada, diálogo institucional e leitura de futuro. Se não acontecer, ainda assim terá cumprido um papel importante ao revelar que a oposição amadureceu e passou a discutir critérios como viabilidade, entrega e narrativa, e não apenas nomes. De Mulher para Mulher, por enquanto, segue como rascunho de bastidor. Um desenho em observação, testado com cautela e sem anúncios precipitados. Mas a política ensina que rascunhos bem construídos raramente ficam esquecidos. Alguns viram manchete. Outros viram candidatura. E alguns acabam mudando o rumo do jogo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *