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Editorial – Dois decretos: Pascoal ou Gilberto

Há histórias políticas que não cabem nos autos porque nunca chegaram nem perto da verdade formal, mas sobrevivem nas mesas de café, entre um pão na chapa suando gordura e um gole de cinismo no ponto. Esta é uma delas. É daquelas histórias contadas com o dedo em riste, o cotovelo fincado na mesa e a convicção inabalável de quem não tem prova nenhuma, mas tem absoluta certeza de tudo. Como toda grande lenda sergipana, mistura poder, vaidade, sobrenome pesado, elevador social e um governador que tremia mais para decidir do que político em véspera de delação premiada, aquele que pede água, advogado, habeas corpus e mais cinco minutos para pensar ao mesmo tempo.

Reza a conversa que a escolha do Quinto do MPE para o Tribunal parecia resolvida antes mesmo de começar. A lista tríplice estava ali, educada, comportada, esperando apenas a caneta do governador. E o favorito, segundo o folclore jurídico-político local, era Gilberto Vilanova. Não por acaso. Gilberto carregava currículo, história e uma relação antiga com a família Franco. Daquelas relações que atravessam gerações, escritórios de advocacia, emissoras de TV, usinas e até o elevador do prédio.

Diz a lenda, dessas que em Sergipe nunca são só lenda que a mãe do então governador Albano Franco subiu dois andares, não por acaso, mas por convicção, para dar parabéns antecipados ao futuro desembargador. Gilberto morava no mesmo prédio, o que já encurtava não apenas a distância física, mas também a política. E mais: a mãe de Albano gostava muito de Gilberto, a ponto de ir pessoalmente à casa dele para cumprimentá-lo, como quem confirma aquilo que o Diário Oficial ainda não teve coragem de publicar. Quando a política chega a esse grau de intimidade doméstica, elevador, vizinhança, visita, afeto, normalmente o decreto já está praticamente assinado. Normalmente. Porque em Sergipe, até quando tudo parece decidido no hall do prédio, a política ainda consegue dar um último suspiro de suspense.

Mas Albano nunca foi exatamente um homem conhecido por decisões rápidas. Ou decisões firmes. Ou decisões, ponto final. Albano tinha o raro talento de ouvir todo mundo, concordar com todos e decidir sozinho. E quase sempre mal. Enquanto Gilberto era tratado como escolhido informal para o TJ/SE, surgiu o tal vácuo político. E vácuo, em política, é convite aberto para manobra. Quem percebeu isso com a precisão de um engenheiro e a frieza de um enxadrista foi o ex-governador João Alves Filho. O Negão, como gostava de ser chamado, não entrou em cena com discurso inflamado. Entrou com método. Conversa aqui, cochicho ali, telefonema estratégico acolá. Não foi diretamente a Albano. Mandou recado. Política raiz. Daquela que não deixa rastro em ata, mas resolve em corredor.

O argumento era elegante, quase francês. Pascoal Nabuco seria mais “fino trato”. Mais conversável. Menos… Gilberto. Porque Gilberto tinha cabedal jurídico. E no Brasil e principalmente em Sergipe, conhecimento demais costuma ser visto como defeito de fábrica. Albano ouviu. Ouviu muito. Ouviu tanto que dizem que chegou a redigir dois decretos. Um nomeando Gilberto. Outro nomeando Pascoal. Uma espécie de Schrödinger institucional. Enquanto a caneta não descia, os dois eram e não eram desembargadores ao mesmo tempo.

No fim, venceu o decreto do medo. Albano, fiel ao seu histórico, fez o que fazia melhor: adiou a coragem e assinou o que lhe parecia menos conflituoso. Pascoal entrou. Gilberto ficou. E ficou triste. Muito triste. Tão triste que a lenda diz que aquilo lhe custou mais que um cargo. Custou saúde, ânimo e uma confiança que não se recompõe com homenagens tardias.

O constrangimento atingiu nível máximo quando, tempos depois, Albano tentou cumprimentar Gilberto em um evento do Tribunal. Recebeu as costas. Nada mais pedagógico. Em política, virar as costas às vezes diz mais do que um discurso inteiro. Albano saiu dessa história como sempre saiu das decisões difíceis: dizendo que era amigo de todos. Mas como bem resumiu um observador de mesa de café, Albano não era amigo de ninguém. Era apenas fiel às próprias hesitações.

João Alves saiu dessa história como quem entendeu o jogo antes do intervalo. Não venceu pela força, venceu pela leitura do adversário. Percebeu cedo que o problema não era Gilberto nem Pascoal, era o vácuo. E onde Albano hesitava, João ocupava. Enquanto um construía a dúvida, o outro construía estrada, orla e ponte de concreto, dessas que ficam quando o discurso evapora. A decisão não caiu por mérito comparado, caiu por manobra bem executada diante da incapacidade crônica de Albano Franco de escolher sem pedir socorro ao próprio medo. Gilberto Vilanova, por sua vez, ficou como o símbolo do jurista que perdeu não por falta de currículo, mas por excesso dele. Num sistema em que a conversa sussurrada pesa mais que o direito escrito, às vezes o erro é saber demais. Pode ser lenda, pode ser exagero, mas toda lenda política brasileira carrega um núcleo duro de verdade, sobretudo quando ninguém corre para desmentir. E no fim, como quase sempre, a decisão não foi tomada no plenário nem no Diário Oficial. Foi tomada ali mesmo. Entre o café, o pão na chapa e a incapacidade de decidir.

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