O Quinto Constitucional da advocacia terminou em Sergipe com roteiro de bastidor, voto apertado e ironia política servida quente. Durante anos, muita gente apostou que Márcio Conrado seria o nome natural da disputa. Tinha votação forte na OAB, trânsito silencioso no Tribunal e a lembrança permanente do episódio envolvendo Roberto Porto, seu concunhado, que acabou se abstendo de votar depois da discussão sobre possível impedimento. Era candidatura com mapa, bússola e corredor conhecido. Só que, em eleição de toga, às vezes quem chega ao destino é justamente quem ficou mais quieto na estação.
A lista sêxtupla saiu da advocacia com Márcio Conrado na frente, com 2.597 votos, seguido por Fabiano Feitosa, com 2.491, América Nejaim, com 1.929, Marília Menezes, Carla Caroline e Kleidson Nascimento. A advocacia falou primeiro. O Tribunal falou depois. E o Palácio, que imaginava falar por último com a tranquilidade de quem segura a caneta, descobriu que a caneta só manda de verdade quando a lista ajuda. A OAB homologou a lista sêxtupla e o TJSE recebeu os seis nomes para formar a lista tríplice.
No Pleno do TJSE, o jogo mudou. A votação colocou Kleidson Nascimento na frente, com 10 votos. Márcio Conrado ficou com 8. América Nejaim entrou com 7, depois de vencer Fabiano Feitosa no segundo escrutínio por 7 a 6. Foi aí que a política respirou fundo e engasgou com o próprio café. Fabiano, apontado nos bastidores como o nome preferido do governador Fábio Mitidieri, ficou fora da lista por um voto. Um voto apenas. Em política, um voto é detalhe para quem ganha e caminhão de ironia para quem perde.
A queda de Fabiano foi o ponto central da história. Ele era tratado como o candidato mais próximo do governador, o nome mais confortável para o Palácio e a escolha que deixaria Fábio em casa dentro do processo. Mas o Tribunal retirou Fabiano da mesa antes que a lista chegasse ao gabinete do governador. O Palácio queria filé, mas o cardápio chegou sem filé. Restava escolher entre Kleidson, Márcio e América. E, nesse desenho, Márcio tinha força em parte do Tribunal, mas não tinha a simpatia política necessária do governador. América tinha peso simbólico. Kleidson tinha 10 votos e a vantagem perfeita: era a justificativa institucional mais limpa.
Foi por isso que Kleidson virou a solução possível, rápida e politicamente conveniente. O governador recebeu a lista e anunciou Kleidson como novo desembargador, afirmando que respeitou a decisão da maioria do TJSE. Formalmente, a explicação é correta. Kleidson foi o mais votado pelo Pleno. Politicamente, porém, a leitura é mais dura: Fábio não escolheu seu preferido. Escolheu o nome que o Tribunal tornou mais fácil de justificar. Não foi exatamente vitória do Palácio. Foi mais parecido com aquele sujeito que chega ao restaurante, pede picanha, ouve que acabou, aceita frango grelhado e ainda diz que estava com vontade de comer frango desde cedo.
É aqui que Fábio Mitidieri entra para a história política de Sergipe por uma porta estreita, desconfortável e sem tapete vermelho. Na leitura dos bastidores, ele já havia vivido situação parecida na vaga do Ministério Público: Bruno Melo era apontado como o nome de sua preferência, mas quem acabou nomeado foi Etélio Carvalho. Agora, na vaga da advocacia, o roteiro se repetiu com mais ironia ainda. Fabiano Feitosa, também tratado nos bastidores como o preferido do governador, caiu antes da escolha final, derrotado por América Cardoso por 7 a 6, justamente em uma votação em que o voto de Etélio era visto por muitos como certo para Fabiano. Com Fabiano fora do jogo, Kleidson Nascimento virou a solução possível e acabou nomeado desembargador. Em duas oportunidades de Quinto Constitucional, Fábio teve conversa, expectativa, articulação e caneta. Só não teve o principal: o nome de sua preferência sentado na cadeira. É uma marca rara na política sergipana. O governador escolhe, sim. Mas, antes dele escolher, alguém monta o cardápio, define o prato do dia, entrega a conta e ainda pergunta se ele gostou do tempero.
O Portal Fausto Leite já vinha lendo esse tabuleiro há mais de dois anos, sem bola de cristal, sem vidência jurídica e sem desembargador escondido na redação tomando cafezinho frio. Era leitura de corredor, de silêncio, de movimento e de poder. Ontem pela manhã, antes da votação, o Portal foi ainda mais direto: no cenário formado por Kleidson Nascimento, Márcio Conrado e América Nejaim, Kleidson seria o nome escolhido pelo governador Fábio Mitidieri. E foi exatamente o que aconteceu. Não foi profecia. Foi diagnóstico político. Às vezes, jornalismo bem feito parece previsão porque enxerga antes aquilo que muita gente só admite depois que o placar aparece no telão. O Portal não adivinhou o resultado. Apenas leu o jogo antes do apito final.
No fim, a lista da OAB mostrou a força da advocacia. A votação do Tribunal mostrou a força da instituição. A escolha de Fábio mostrou a força da política, mas também seus limites. Fabiano caiu por 7 a 6. Márcio entrou na lista, mas não levou a caneta. Kleidson recebeu 10 votos, chegou ao Palácio com o selo do Pleno e saiu desembargador. Fábio Mitidieri, por sua vez, ficou com a fotografia mais incômoda do episódio: tinha preferência, tinha Palácio, tinha caneta, tinha conversa e tinha expectativa, mas não colocou seu candidato na toga. Em Sergipe, até quando o governador escolhe, às vezes parece que escolheram antes por ele.




