Eduardo Amorim (PL) decidiu, nos últimos 20 dias, reescrever a própria biografia como se estivesse em um retiro de “spa político” com direito a dieta de palavras, alongamento de gestos e massagem de ego. Quem lembra do ex-senador nas últimas eleições recorda bem: ele comprou briga aberta com Valmir de Francisquinho (PL) por causa da não indicação de Emília Corrêa em 2022. Hoje, o dedo em riste deu lugar ao tapinha nas costas. Declara que Valmir tem “direito” de indicar o candidato ao Governo e que Emília deve concluir o mandato. Não se trata de reconciliação, mas de uma coreografia milimetricamente ensaiada no camarim de algum marqueteiro, desses que cobram por hora e entregam frases para caber em manchete.

O motivo dessa súbita paz de espírito de Eduardo Amorim tem nome e sobrenome: Adailton Sousa, ex-prefeito de Itabaiana. Dentro do PL, Adailton vem crescendo como a personificação do “novo” e do novo de verdade. Tem discurso direto, histórico de gestão e uma imagem limpa, o que o coloca como alternativa fresca para um eleitorado que anda cansado das mesmas figuras repetidas a cada eleição. Ele representa renovação, energia e uma forma de fazer política que dialoga com a sede de mudança que se espalha pelo Estado.
E é justamente isso que preocupa Eduardo Amorim. Adailton está ocupando espaço rápido, conquistando apoios silenciosos e, no ritmo em que vai, pode chegar a 2026 como nome natural para a chapa ao Senado pelo PL. Para Amorim, é como ver um vizinho iniciar uma reforma discreta e, quando se dá conta, a vaga na garagem já está ocupada. Se não mudar a rota e rápido, corre o risco de assistir à disputa pelo Senado do conforto incômodo da arquibancada, aplaudindo o avanço de quem chegou depois, mas entendeu antes como o jogo está sendo jogado
Na ânsia de parecer “estadista”, Eduardo Amorim abraçou uma estratégia de silêncio seletivo que está custando caro. No último ato bolsonarista, dia 3, em Aracaju, contra o STF, contra Lula e a favor de Bolsonaro, o ex-senador simplesmente sumiu. Não compareceu e não disse uma única palavra sobre a tornozeleira eletrônica imposta ao ex-presidente. Para o bolsonarista raiz, isso não é omissão qualquer: é traição emocional. É como posar para a foto com a camisa do time e, na hora do jogo decisivo, recusar-se a entrar em campo.

E o reflexo disso é direto: o eleitor bolsonarista convicto não vota em meio-termo, vota em bolsonarista. Para essa base, o voto natural ao Senado vai para Rodrigo Valadares, que está sempre na linha de frente das pautas do ex-presidente. O segundo voto, então, tende a migrar para outros nomes que transmitam mais firmeza ou novidade, como o próprio Adailton Sousa que simboliza renovação dentro do PL, ou até mesmo André Moura, com seu perfil mais de centro, mas que sabe ocupar espaço quando vê brecha. Nesse cenário, Eduardo Amorim corre o risco de ser visto como a opção que não inspira confiança nem na base que mais precisa

O jogo da direita em Sergipe está mais para final de campeonato do que para amistoso. Rodrigo Valadares (UB) ostenta o selo Bolsonaro e reage a qualquer ataque ao ex-presidente com a velocidade de um tweet viral. Luizão Dona Trampi (UB) colocou seu nome na disputa e parte para cima sem medo de arranhar a pintura, buscando seu espaço no debate e na preferência da base conservadora.
Nesse ambiente, não há espaço para quem tenta dançar entre dois ritmos. Quem busca equilibrar-se entre centro-direita e conservadores vive em corda bamba: ou segura firme de um lado, ou despenca para o esquecimento. Na política, o meio do caminho raramente leva à vitória e, em ano de disputa acirrada, indecisão é sinônimo de autossabotagem.

O eleitor sergipano até tolera que um político mude de discurso, desde que isso venha de convicção genuína, e não de um roteiro encomendado por marqueteiro. Hoje, porém, a nova versão de Eduardo Amorim mais se parece com um personagem improvisado de novela das nove: muda de enredo a cada capítulo e tenta agradar todos os públicos ao mesmo tempo. O problema é que, na política, quem tenta agradar a todos inevitavelmente desagrada a maioria e termina aplaudido apenas pelo próprio marqueteiro, que, no fim das contas, é o único convencido dessa atuação.




