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Editorial: Emília Corrêa entre a “onça”, o “sistemão”e a LOTAJU

Segura essa, Aracaju: a novela política ganhou novos capítulos, e desta vez com mais emoção do que final de campeonato do Mundial de Clubes. A prefeita Emília Corrêa, a autoproclamada “onça” da política aracajuana, resolveu mostrar as garras e vetar o projeto da Lotaju, a loteria municipal que prometia transformar o sonho do bilhete premiado em receita para os cofres públicos. Mas, como sempre na política, a história não é simples. E aqui, meu caro leitor, você vai acompanhar os bastidores, as contradições e as porradas políticas que estão transformando a gestão de Emília em um verdadeiro ringue de UFC com direito a nocaute moral.

O veto da prefeita virou o assunto desta semana, mas não pelo motivo que ela gostaria. O projeto da Lotaju foi apresentado na Câmara pelo vereador Isaac Silveira, líder do governo. E Isaac, com a tranquilidade de quem fala sem filtro, soltou o verbo dizendo que a ideia veio do Executivo. Disse, literalmente, que o Executivo pediu para ele apresentar o projeto. Agora, respira fundo e pensa comigo: se o projeto era do Executivo, por que diabos a prefeita vetou o próprio projeto? Ou Isaac está mais perdido que influenciador digital explicando o que é pacto federativo ou Emília protagonizou o primeiro caso de “autoveto governamental” registrado na história política de Sergipe.

E não estamos falando de um veto qualquer, daqueles protocolares que passam despercebidos no Diário Oficial. Foi um veto robusto, com carimbo jurídico de “inconstitucionalidade” estampado em letras maiúsculas. A prefeitura justificou que o município não tem competência para legislar sobre loterias, que a proposta feria o pacto federativo e a livre concorrência, que não havia interesse local relevante e, para completar, que havia um vício de iniciativa, já que o projeto mexia na estrutura administrativa e na destinação de recursos públicos, prerrogativas exclusivas do Executivo. Traduzindo para o português claro: Isaac apresentou um projeto juridicamente tão furado que parecia um queijo suíço esquecido no sol.

E o mais curioso: tudo isso já havia sido alertado pelo vereador Elber Batalha, que desde o início apontava os riscos de um projeto com vícios tão evidentes. Mas, como é de praxe na política, o alerta foi ignorado até virar bomba no colo do Executivo. A partir daí começou o verdadeiro jogo de empurra: Isaac jura de pés juntos que a ideia partiu do Executivo; o governo rebate e diz que não. Quem está mentindo? Quem fala a verdade? Enquanto isso, o povo acompanha tudo como quem assiste a uma partida de pingue-pongue: de um lado, Isaac devolvendo a bola com a frase “foi o governo que pediu”; do outro, Emília rebate negando autoria. E a cada nova rebatida, a credibilidade política vai quicando junto, deixando a plateia confusa e, claro, indignada.

Lembra daquela frase clássica do professor Carlos Brito? “É no balançar da carroça que as abóboras se ajeitam.” Pois é, no governo de Emília, as abóboras não só não se ajeitaram como estão rolando ribanceira abaixo. Em sete meses de mandato, o período de glamour acabou. A “onça” que prometia devorar o “Sistemão” está, na prática, apanhando de todos os lados: imprensa, vereadores, deputados e até da classe política que antes a aplaudia. O vereador Elber Batalha tem feito críticas pesadas e certeiras, lembrando o passado de Emília como vereadora. A mesma Emília que esbravejava contra prefeitos virou a Emília que agora sente na pele as cobranças que antes fazia. O barco não anda, a banda não toca, e a prefeita está descobrindo, talvez pela primeira vez, que a retórica de oposição é fácil; governar é que é duro.

E, para completar a bagunça, vamos falar do famoso Sistemão, esse fantasma político que Emília jurava combater. Venâncio Fonseca, ex-deputado, jogou a verdade na cara dela: disse que ela também faz parte do tal sistema. Sim, meus amigos, Emília trabalhou com João Alves Filho, o ex-governador apontado como um dos “pilares” do Sistemão, junto com os irmãos Amorim. Em outras palavras, criticar o Sistema enquanto você foi parte dele é como reclamar do cheiro de churrasco comendo picanha do mesmo espeto. Ou seja, o “Sistemão” virou piada de botequim, e quem inventou a história agora tenta explicar o inexplicável.

Mas, justiça seja feita: o veto da Lotaju foi um acerto raro. Em um cenário em que as apostas online já consomem R$ 68 bilhões por ano no Brasil, o equivalente a 0,22% do PIB, criar uma loteria municipal seria dar fósforo para criança brincar de fogueira. E o impacto disso é devastador: as classes mais pobres são as maiores vítimas. Como explicou o professor Marcelo Pereira de Mello, da UFF, o apostador contumaz das bets vê o jogo como investimento. Ele acha que R$ 10 pode virar R$ 1.000, mas geralmente vira dívida, briga de casal e ansiedade. 51% dos apostadores relatam aumento de sintomas ansiosos, e 42% usam o jogo como fuga da realidade, o que aprofunda a sensação de impotência. Até menores de idade conseguem apostar, já que os mecanismos de controle são frágeis. 

E aqui entra um mérito de Emília: foi uma decisão louvável vetar a Lotaju. Talvez, pela primeira vez no mandato, a “onça” rugiu com consciência social. Mas, enquanto Emília tenta se equilibrar, as porradas agora vêm de dentro. O próprio Isaac Silveira deu declarações nada amigáveis, dizendo que Emília precisa se cercar de “pessoas que prestam”. Traduzindo: os assessores atuais não prestam. E aí, claro, vem o lado irônico: Emília, que falava em caçar lobos no “Sistemão”, agora está sendo devorada pelos próprios cordeiros.

Tem mais: a prefeita tem mania de falar dela mesma na terceira pessoa. “A Emília vetou, a Emília decidiu.” Prefeita, você não é narradora do governo, é a protagonista. Diga “eu vetei, eu fiz, eu decidi.” E, por favor, menos gerúndio. Como bem notou a blogueira Bia Muniz, esse “estamos fazendo, estamos pensando” soa como promessa vazia. O povo quer verbo no passado e no presente: “fiz, faço”.

Felinos dizem ter sete vidas, mas Emília parece ter gastado todas em apenas sete meses. Se continuar tropeçando nos próprios discursos, vai terminar o mandato como uma gata escaldada, sem forças para rugir. Mas, se mantiver decisões firmes como esse veto e começar a falar menos como personagem e mais como prefeita, pode reconquistar parte da credibilidade que perdeu. Porque, no fim, o sucesso dela não é só dela. É de Aracaju. E ninguém torce contra a cidade, torce contra erro.

E agora, Emília? Vai continuar sendo a narradora da própria vida, falando “a Emília vetou”, ou vai assumir o comando dizendo “eu vetarei quando necessário”? Porque, minha cara prefeita, na política, ou você joga o jogo com coragem ou vira apenas mais uma peça do tabuleiro do “Sistemão” que tanto critica.

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