Tem coisa que não dá mais para disfarçar com coletiva bonita e discurso ensaiado. Sergipe está vivendo um daqueles momentos em que a realidade bate mais forte do que qualquer narrativa. A tal obra da Avenida Maranhão virou símbolo disso, uma obra pronta para andar, mas travada por um detalhe básico, falta de água e rompimentos constantes na rede, responsabilidade direta da Iguá. E aí aparece o roteiro clássico, depois do problema explodir, anunciam solução como se fosse iniciativa espontânea.
A prefeita Emília Corrêa fez o que qualquer gestor sério faria, cobrou, documentou, pressionou, judicializou e criou um comitê de monitoramento. Trabalho, método, enfrentamento. Não teve selfie, teve ação. Mas bastou isso para, no dia seguinte, o governo do Estado correr e criar um “grupo de trabalho”, como se tivesse descoberto o problema naquele exato momento. Coincidência curiosa demais para ser ignorada. E aí entra a pergunta que ecoa nas ruas e nos grupos de WhatsApp, onde estava a Agrese esse tempo todo? Porque agência reguladora não é enfeite institucional, é órgão de fiscalização. Se o povo estava sem água, se as redes estavam rompendo, se obras estavam sendo prejudicadas, alguém não estava olhando ou não estava querendo ver. E isso pesa, pesa muito.
Enquanto isso, o povo faz o papel que ninguém queria fazer. Em Nossa Senhora do Socorro, relatos diários de torneira seca, gente dependendo de carro-pipa, famílias improvisando rotina para ter o mínimo. No sertão, a situação chega a ser desesperadora. Porto da Folha virou exemplo de resistência, moradores passaram semanas sem água, protestaram, gritaram, pediram socorro. E o que receberam? Pressão, intimidação e silêncio institucional.
O deputado Thiago de Joaldo colocou o dedo na ferida lá na tribuna da Câmara. Denunciou que recebeu interpelação judicial da própria Iguá por ter dado voz ao povo. Veja o nível, a população sem água e quem denuncia é que vira alvo. Sergipano passando sede e empresa preocupada com quem fala no rádio. Parece piada, mas é realidade. Thiago ainda disse na tribuna que moradores que protestaram em Porto da Folha começaram a receber intimações. Gente simples, que nunca teve problema com polícia, sendo tratada como se tivesse cometido crime. Crime de quê? De pedir água. É o tipo de situação que escancara o desequilíbrio, quem deveria prestar serviço se defende, quem deveria ser atendido precisa se justificar.
Tudo isso tem origem, e ninguém pode fingir que não sabe. A concessão da Deso para a Iguá não foi obra do acaso, foi decisão política do governo de Fábio Mitidieri. Prometeram eficiência, prometeram melhoria, prometeram solução. O que se vê hoje é falta de água, obra travada e população revoltada. A conta chegou, e não foi barata. E quando a crise aperta, surge o velho truque, tentar assumir o papel de salvador do problema que ajudou a criar. Mas o sergipano não é ingênuo. Ele sabe diferenciar quem age antes e quem corre depois. Sabe quem cobrou e quem apareceu na coletiva. E principalmente, sabe quem está com sede.
No final das contas, esse episódio não é só sobre água, é sobre responsabilidade. Sobre quem tem coragem de enfrentar e quem prefere administrar narrativa. Porque água não é favor, não é promessa, não é discurso. Água é direito. E quando esse direito falta, não tem marketing que resolva. E fica o aviso, não adianta tentar calar deputado, intimidar cidadão ou maquiar problema. Sergipe já entendeu o jogo. E quando o povo entende, não tem coletiva que segure.




