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Entre o fuzil e o batom, quem perdeu a noção?

Tem cena que a gente assiste e o coração aperta antes mesmo do cérebro processar. Uma mulher, advogada, sendo conduzida sob tensão, cercada por um aparato que parece mais cena de filme policial do que realidade jurídica. E aí vem aquela sensação conhecida de toda mulher. Não é só com ela. É com todas nós. Porque quando uma mulher é exposta assim, a mensagem não é individual. É coletiva. É como se o sistema dissesse baixinho, quase sussurrando no nosso ouvido: cuidado com o tom, cuidado com o lugar, cuidado com o quanto você aparece.

Aricka Cunha não é só um nome que viralizou. É uma mulher que estudou, trabalhou, enfrentou audiências, enfrentou olhares, enfrentou o velho teste diário que toda profissional enfrenta. E aí, de repente, vira alvo. E eu te pergunto, mulher sergipana, com toda sinceridade: você nunca sentiu que precisava ser duas vezes mais firme para ser levada a sério? Pois é. Agora imagina ser firme e ainda assim ser tratada como ameaça. É aqui que o Direito, quando falha, deixa de ser proteção e vira constrangimento público.

Do outro lado está Christian Zanini, com todo o peso da função estatal. E aqui eu vou ser direta, com aquele toque de humor que a gente usa para não chorar. Fuzil na mão não é sinônimo de razão na cabeça. Autoridade não é volume, não é intensidade, não é grito. Autoridade é limite. E quando o limite escapa, minha amiga, não é firmeza. É excesso vestido de poder.

Agora vem a parte que pouca gente fala, mas deveria estar na ponta da língua de qualquer estudante de Direito. Crimes contra a honra, como difamação, calúnia e injúria, em regra, não comportam esse tipo de espetáculo. Não existe essa lógica de sair prendendo em flagrante como se fosse cena de perseguição de série policial. O que existe é procedimento, é análise, é garantia. Quando isso é ignorado, o que a gente vê não é justiça sendo feita. É o Direito sendo atropelado de salto alto, e olha que salto alto a gente sabe usar, mas com elegância, não com abuso.

E aqui entra o ponto psicológico, aquele que a gente sente, mas nem sempre sabe explicar. O excesso de força comunica insegurança. É quase como alguém que aumenta o volume da voz porque perdeu o argumento. Recentemente discutiram se alguém teria capacidade de exercer autoridade por não conseguir manejar um fuzil. Olha que ironia. Agora temos alguém que maneja o fuzil, mas talvez ainda precise aprender a manejar a própria reação emocional. Porque equilíbrio não vem no coldre, vem na cabeça.

E enquanto isso, cadê as vozes femininas institucionais? Cadê a Ordem dos Advogados do Brasil Seccional Sergipe? Cadê as comissões das advogadas, as defensoras da classe? Silêncio. E silêncio, minha querida, nunca foi neutro. Silêncio é escolha. E escolha, nesse caso, pesa. Porque hoje foi uma advogada. Amanhã pode ser uma médica. Depois uma jornalista. Depois uma professora. Depois uma dona de casa. Depois… você.

E deixa eu te dizer uma coisa com aquele tom de stand-up que a gente usa pra sobreviver. Imagina se fosse o contrário. Imagina um homem advogado sendo exposto daquela forma. Será que o roteiro seria o mesmo? Ou será que iam dizer “vamos com calma, doutor”? Pois é. A régua muda. Sempre mudou. Só que agora a gente está começando a falar disso em voz alta. E isso, incomoda. E ainda bem que incomoda.

Então eu te faço um convite, mulher sergipana. Comente. Pela primeira vez, se for o caso. Se posicione. Fale sobre o seu direito de existir sem ser tratada como excesso. Porque liberdade não é favor. Respeito não é concessão. E o Direito, minha amiga, não foi feito para nos calar. Foi feito para nos proteger. Se não está protegendo, então está na hora de perguntar, com toda a elegância do mundo e um sorriso no canto da boca: quem foi que saiu do script aqui?

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