Há momentos na vida pública em que o sujeito não fala, ele resolve. E quando resolve, resolve bonito. A saída do desembargador Roberto Eugênio Porto do processo do Quinto Constitucional foi exatamente isso: um gesto que fez mais barulho do que muito discurso cheio de latim. Foi elegante, foi estratégico e, acima de tudo, foi inteligente. Num ambiente onde todo mundo quer ficar até o último segundo, ele fez o contrário, levantou, ajeitou a toga e disse “vou ali preservar a instituição”.
E diga-se de passagem, sair é uma arte. Ficar qualquer um fica, brigando, esperneando, citando súmula até cansar o relator. Agora sair, no auge da pressão, com o argumento pronto, a tese estruturada e ainda deixando claro que poderia continuar… isso é coisa de quem joga xadrez enquanto os outros ainda estão discutindo o dominó e ludo. Roberto fez o que muita gente pensa, mas não tem coragem de fazer. Saiu não derrotado, mas elevado. Saiu como porto seguro em meio a um mar de vaidades.
Agora… como toda boa história brasileira, tem sempre aquele “mas” que vem sorrindo e dá um tapinha no ombro. Porque se o gesto foi grande, ele poderia ter sido histórico. Se tivesse vindo antes, lá atrás, quando o problema ainda era um cochicho de corredor e não uma novela jurídica em horário nobre, ele teria saído não só como gigante, mas como inevitável. Hoje saiu grande. Antes sairia lendário como o Cláudio Déda. Porque no Judiciário, meu amigo, atraso elegante ainda é atraso.
Agora vamos falar do atraso… porque ele não chegou, ele se instalou com endereço fixo e direito a cafezinho na copa do cartório. Veio pesado, veio raiz, veio com aquela energia de processo físico empilhado que ninguém sabe quem começou e ninguém tem coragem de terminar. Com o governador se licenciando, com Zezinho Sobral fora da linha porque é candidato, com Jefferson Andrade também impedido, quem assume o volante do Estado é Iolanda Guimarães. E aí, meu amigo, o processo olhou pra tudo isso e disse: “vou dar uma voltinha e já volto”… só que esse “já volto” tem cara de maio. E olha que tem até previsão para o dia 05 do quinto mês, uma terça-feira, dia de sessão. Coincidência? Talvez. Destino? Pode ser. Numerologia? Ainda estamos aguardando o perito. Porque, do jeito que está, só falta mesmo consultar os astros pra saber quando esse processo resolve sair da fila e virar decisão.
E no meio desse roteiro que já virou novela de fim de tarde, quem ganhou um tempinho extra foi o desembargador Manoel Costa Neto, agora com alguns dias a mais para aquela clássica missão institucional de “arrumar as gavetas” que, na prática, é quase um retiro administrativo com café reforçado e agenda sem pressa. E é justamente aí que o clima muda e o foco vira Daniel Costa. Enquanto o processo pegava fogo, a OAB resolveu adotar o modo avião institucional, silêncio absoluto, quase um mosteiro jurídico em plena crise. E aqui não tem enigma: quando quem tem a obrigação de falar escolhe o silêncio, não está sendo prudente, está sendo omisso. E omissão, em cenário quente, não protege a instituição, só deixa a advocacia assistindo o próprio jogo do lado de fora.
No fim das contas, a advocacia aplaude Roberto Porto. Aplaude porque ele destravou um processo que já está quase pedindo aposentadoria por tempo de serviço. Aplaude porque ele entendeu que a instituição precisava respirar antes de sufocar de vez. Mas também guarda a lição, com aquele sorriso de canto de boca típico de quem já viu esse filme antes: grandeza não está só no gesto, está no timing. Porque no teatro da vida pública, sair é bonito. Mas sair na hora certa… aí você vira protagonista e ainda leva aplauso de pé.




