O governo de Sergipe gosta de apresentar a segurança pública como uma sala recém reformada: paredes pintadas, iluminação estratégica e nenhuma câmera apontada para o cômodo onde está a bagunça. Enquanto a propaganda celebra a redução dos homicídios e vende a imagem do Estado mais seguro do Nordeste, Sergipe registrou, em 2025, 945 ocorrências de maus tratos contra crianças e adolescentes. A taxa chegou a 164,9 casos para cada 100 mil habitantes dessa faixa etária, mais que o dobro da média brasileira, colocando o estado na liderança nordestina e na quarta pior posição nacional. É uma façanha que certamente não ganhará vídeo institucional, trilha emocionante nem governador sorrindo diante do pôr do sol.
O governo argumenta que o crescimento de 31,7% nos registros pode decorrer da melhoria dos canais de denúncia e da redução da subnotificação. A explicação merece ser considerada, mas não pode funcionar como perfume borrifado sobre uma tragédia. Se o Estado está encontrando mais crianças violentadas, precisa informar quantas foram protegidas, quantas continuam convivendo com o agressor, quantas famílias recebem acompanhamento e quantos casos reincidentes existem. Descobrir a vítima e depois abandoná-la num labirinto de encaminhamentos não é política de proteção. É apenas transformar sofrimento infantil em produtividade administrativa. A criança ganha um cadastro, o governo ganha uma estatística e o agressor, muitas vezes, continua ganhando acesso à criança.
A mesma filosofia do socorro tardio aparece na política ambiental. A Operação Mata Atlântica em Pé fiscalizou 18 áreas correspondentes a 98 hectares, aplicou cerca de R$ 638 mil em multas relacionadas a 14 hectares e determinou quatro embargos. O uso de alertas por satélite e a ação integrada da Adema, do Ibama, da Polícia Militar e do Ministério Público são necessários e merecem reconhecimento. Mas o balanço também produz uma pergunta menos agradável: se a tecnologia conseguiu enxergar a devastação do espaço, por que a estrutura pública não conseguiu impedir que ela avançasse no tempo? A floresta caiu, o satélite avisou, a equipe chegou e o governo apresentou o resultado como se árvore autuada voltasse a produzir sombra.
E então chegamos à Ouvidoria, essa sofisticada invenção administrativa que permite ao cidadão reclamar sem atrapalhar o silêncio do governo. O portal oficial reúne relatórios estatísticos de janeiro a agosto de 2026 e permite selecionar órgãos como Huse, Detran, Adema, Agrese, Deso, Ipesaúde, Educação e dezenas de outras estruturas públicas. O mecanismo existe, o protocolo nasce e a indignação recebe número, data e aparência de participação democrática. O que não aparece com a mesma facilidade é o mapa inteligível dos problemas: quais órgãos lideram as reclamações, quais demandas se repetem, quanto tempo levam as respostas e, sobretudo, quantas reclamações produziram alguma mudança concreta.
Os três casos parecem diferentes, mas contam exatamente a mesma história. A criança precisa sofrer para entrar na estatística, a mata precisa cair para entrar no relatório e o cidadão precisa reclamar várias vezes para talvez entrar numa planilha. O governo surge sempre no último capítulo, bem penteado, portando números e anunciando providências. É o poder público convertido em comentarista do próprio atraso. Não antecipa o risco, não expõe com clareza os resultados e raramente transforma informação em correção estrutural. Depois apresenta a capacidade de registrar o desastre como prova de eficiência. É como um bombeiro que chega quando a casa já virou cinza, tira uma fotografia ao lado da mangueira e pede aplausos porque preencheu corretamente o boletim.
Segurança verdadeira não é apenas contar quantas pessoas deixaram de morrer nas ruas. É impedir que crianças sejam espancadas dentro de casa, que a vegetação desapareça longe das câmeras e que a reclamação popular seja sepultada num protocolo eletrônico. Sergipe não precisa de um governo que apenas descubra, autue e arquive. Precisa de um governo que previna, proteja e preste contas. Enquanto isso não acontecer, a propaganda continuará oferecendo um estado seguro, sustentável e aberto ao cidadão. Só há um pequeno problema de enquadramento: as crianças feridas, as árvores derrubadas e os contribuintes ignorados continuam cuidadosamente fora da fotografia.




