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Editorial: Fábio, Sergipe não aguenta mais a falta d’água

Em Sergipe, água virou artigo de luxo e tomar banho passou a ser quase um ato de ostentação. Em pleno século XXI, depois de uma concessão bilionária vendida como a grande redenção hídrica do Estado, o que temos é o sergipano olhando para a torneira como quem espera milagre de santo em dia de seca. Primeiro foi o interior. Gararu, sertão afora, cidades inteiras convivendo com o velho desfile da humilhação: balde, lata, carro-pipa e a pergunta clássica de toda casa nordestina em crise, “a água chegou?”. Depois veio Barra dos Coqueiros, Socorro, Mosqueiro e finalmente Aracaju, a capital turística que vende mar azul e entrega caixa d’água vazia.

A promessa era bonita. A concessão da distribuição para a Iguá Saneamento foi apresentada como modernização, eficiência e investimento pesado. O discurso parecia trailer de campanha: bilhões investidos, universalização até 2033, dignidade hídrica e fim da velha novela da torneira seca. A própria empresa fala em atendimento a 74 municípios, mais de 2 milhões de pessoas e investimentos já iniciados. No papel, parecia Dubai. Na prática, o Mosqueiro passou mais de dez dias sem água e o cidadão voltou a viver como se estivesse em 1954, só que pagando conta de 2026.

A desculpa virou esporte olímpico. A Iguá aponta para a DESO e diz que a captação e a velha adutora do São Francisco são o problema. A Deso responde dizendo que herdou sistema antigo, defasado, cheio de vazamentos e remendos históricos. A pergunta óbvia, que ninguém consegue responder sem tossir, é simples: se a estrutura era esse Titanic hidráulico, por que a concessão foi feita sem a devida vistoria profunda? E se a Deso era do próprio governo, por que não consertou antes? Não dá para vender o carro sem freio e depois culpar a estrada.

Em abril de 2026, a própria Deso anunciou interrupção total no abastecimento de Aracaju, Nossa Senhora do Socorro e Barra dos Coqueiros por causa de reparos emergenciais na Adutora do São Francisco, afetando cerca de 800 mil pessoas e bairros como Coroa do Meio, Atalaia, 17 de Março, Jabotiana, Farolândia, Gameleira e Mosqueiro. A Iguá também reconheceu intermitências e atribuiu problemas a rompimentos na adutora operada pela Deso. Ou seja, o sergipano descobriu que mora num reality show chamado “Quem Secou a Água?”, com participação especial da adutora mais famosa do Estado: ela rompe mais que promessa de político em pós-eleição.

E então veio a frase histórica. Quando questionado sobre a falta d’água, o governador Fábio Mitidieri resolveu inovar na gestão pública e lançou a política habitacional mais ousada do ano: “Se faltar água, ofereço um banheiro”. A frase repercutiu fortemente e foi registrada em reportagens e redes sociais. Pronto. Nascia ali o programa “Meu Banheiro, Minha Vida”. O problema é que o povo não queria gentileza sanitária, queria água na torneira. Banheiro emprestado não resolve escola sem água, hospital sem abastecimento nem mãe que precisa lavar roupa de menino.

A reação veio pesada. Deputados como Georgeo Passos, Paulo Júnior e Marcos Oliveira criticaram publicamente a postura do governador. Marcos ironizou dizendo que Sergipe estava vivendo a maior operação de carro-pipa da história recente e chamou o projeto de “Meu Banheiro, Minha Vida”; Georgeo afirmou que não era mais possível defender a Iguá; Paulo Júnior, hoje governista, reforçou que o problema não era política, era gente sem água em casa. Quando até a oposição larga o discurso e entra no stand-up, é porque a realidade já venceu a sátira.

E o povo fez o que sempre faz quando o Estado falha: improvisou. Fechou avenida, protestou, gravou vídeo, reclamou nas rádios, nos grupos de WhatsApp e nas portas das repartições. Contratou carro-pipa como quem assina streaming obrigatório. Em bairros inteiros, a rotina virou um curso intensivo de sobrevivência doméstica. Banho cronometrado, descarga em regime militar e criança aprendendo cedo que abrir a torneira não significa necessariamente encontrar água. O governador foi visitar Mickey nos Estados Unidos enquanto muita gente aqui fazia cosplay involuntário de retirante com balde na cabeça juntamente com o Pateta.

Há uma ironia cruel nisso tudo. No passado, quando Sergipe era mais pobre, mais rural e mais limitado estruturalmente, ainda assim havia a esperança de que a água chegaria. Hoje temos concessão bilionária, tecnologia, discurso de modernização, redes sociais, drones e coletiva de imprensa. E ainda assim falta água. Evoluímos tanto que conseguimos transformar o básico em luxo premium. O problema não é falta de recurso. É excesso de desculpa.

Governador, com todo o respeito que a revolta ainda permite, talvez tenha chegado a hora de transformar sua famosa frase em um verdadeiro ato de responsabilidade pública. Já que o senhor ofereceu seu banheiro ao radialista, talvez seja justo abrir também as portas da sua casa para o povo sergipano que está há dias sem água, sem banho e sem paciência. O pessoal da Terra Dura, do Mosqueiro, da Gameleira, do Complexo Taiçoca, do Marcos Freire, do Jardim, do Parque dos Faróis, da Atalaia Nova, da Coroa do Meio, do Augusto Franco, do Orlando Dantas, do 17 de Março, de Gararu e de tantos outros cantos do Estado poderia fazer uma grande manifestação cívica em frente à sua residência, cada um com sua toalha no ombro, seu sabonete na mão e a dignidade ferida no rosto, esperando a gentileza prometida. 

Mas mais do que abrir o banheiro, o senhor precisa abrir a sinceridade e vir a público pedir desculpas ao povo sergipano pela venda da DESO, pela promessa de melhoria que não chegou e pelo caos hídrico que hoje humilha famílias inteiras. Reconhecer o erro não diminui um governador, engrandece. Enquanto o discurso falava em modernização, o cidadão fazia fila no carro-pipa. Enquanto o senhor visitava o Tio San o sergipano estava com lata d’água na cabeça. Em pleno século XXI, faltar água não é contratempo, é fracasso de gestão e humilhação coletiva. O sergipano não quer favor sanitário nem visita guiada ao banheiro oficial. Quer apenas o básico, o revolucionário, o quase utópico: abrir a torneira de casa e ver água sair. E você, leitor, me diga com sinceridade: até quando Sergipe vai continuar aceitando sede com discurso e torneira seca com propaganda?

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