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Editorial: Fábio Mitidieri, falta água, sobra discurso

O governo de Sergipe parece ter descoberto uma inovação administrativa curiosa: quando falta água, entrega-se explicação. A Iguá, apresentada como solução moderna, eficiente e quase milagrosa para o abastecimento, montou um discurso técnico impecável. Fala em investimentos, combate a desvios, reorganização da rede. No papel, é um espetáculo. Na prática, o cidadão abre a torneira… e sai vento. E vento, até agora, não dá para tomar banho, apenas para correr o relógio do medidor.

O problema não está escondido em planilha, está na rua. Em Gararu, a poucos metros do Rio São Francisco, tem gente convivendo com a ironia mais cruel da geografia: morar ao lado de um dos maiores rios do país e não ter água em casa. Não é falha pontual, é rotina. Não é exceção, é sistema. E quando o básico falha, água, todo o resto vira detalhe. Porque desenvolvimento sem abastecimento é só propaganda com sede.

Em Nossa Senhora do Socorro, a situação segue o mesmo roteiro. Marcos Freire, Jardim, Guajará… bairros inteiros convivendo com torneira seca e paciência esgotada. A Iguá responde com nota técnica. A população responde com balde. E no meio desse conflito silencioso, o governo observa como se estivesse assistindo a um problema terceirizado. Mas não está. Porque quando se vende uma solução, a responsabilidade continua sendo de quem assinou o contrato.

E aí entra o ponto político que começa a pesar. O governador apostou na concessão como saída. Defendeu, articulou, vendeu a ideia de eficiência. Só que agora a conta chegou, e não é a conta de água, que também está sendo questionada por denúncias e inconsistências. É a conta política. Porque quando o serviço não melhora, o desgaste não fica com a empresa. Sobe. E sobe rápido.

Mas nada simboliza melhor esse momento do que a frase que virou meme involuntário: “venha tomar banho na minha casa”. Em um Estado onde falta água em bairros inteiros, oferecer o próprio banheiro não é solução, é roteiro de stand-up. Pode até ter sido dito em tom leve, mas caiu pesado. Porque quem está sem água não quer convite simbólico, quer água na caixa. E política não é lugar para improviso doméstico.

Se a lógica for levada a sério, talvez o próximo passo seja institucionalizar o banho coletivo no gabinete. Ou, no mínimo, distribuir banheiro químico e carro pipa para quem está vivendo na seca urbana. Porque hoje, para muita gente, a realidade é essa: improviso, fila, balde e indignação. E enquanto a Iguá apresenta justificativas e o governo tenta amenizar, o cidadão segue esperando o básico. No fim, o risco é claro. O governo pode não perceber, mas está entrando em uma crise clássica: quando a promessa vira frustração cotidiana. E não existe crise mais perigosa do que aquela que começa na torneira da casa das pessoas. Porque discurso segura manchete. Água segura governo.

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