A Feijoada da OAB é um fenômeno sociológico digno de tese na UFS. Não é só um evento, é um rito, uma coreografia coletiva onde feijão, vaidade, campanha e afeto ensaiado se misturam num panelão emocional que nenhum gastrólogo explicaria com precisão. Ali, entre uma concha de caldo e outra, a advocacia sergipana encena sua mais antiga peça: a disputa do Quinto Constitucional, um campeonato de popularidade travestido de processo seletivo.
Desde cedo, a entrada do evento parecia uma espécie de tapete vermelho jurídico. Cada candidato chegava como se estivesse concorrendo ao Oscar do Foro. Luz na cara, câmera atrás, cinegrafista lateral e um assessor sempre dois passos à frente para organizar o abraço simétrico. Era tanta produção que dava para filmar uma minissérie inteira. Parecia até o desfile dos trios no Pré-Caju, só que com mais terno, menos glitter e muito mais promessas não escritas.
E as promessas, sim, são a alma desse teatro. Especialmente a mais clássica de todas: o gabinete aberto. Essa frase já deveria entrar no patrimônio cultural da advocacia sergipana. Todos repetem, todos juram, todos acenam com um sorriso largo e sincero naquele estilo: “vai ser diferente desta vez”. Só que não é. Nunca foi. E dificilmente será. Desembargador com gabinete totalmente aberto é igual fogueira de São João que não faz fumaça. Bonita na teoria, impossível na vida real.
O que existe é porta com senha, assessor com prancheta, protocolo com fila e um desembargador que, por mais simpático que seja, jamais pode se transformar em síndico de condomínio, ouvindo reclamação de um lado e do outro ao mesmo tempo, enquanto tenta decidir um processo. Imaginem dois advogados entrando ao mesmo tempo no suposto gabinete aberto. Um pedindo para conceder, o outro pedindo para negar. Isso não é gestão judicial, é reality show. E dos perigosos.
A feijoada, no entanto, foi além da encenação clássica. Teve sorrisos amarelos, sorrisos brancos, sorrisos apertados, abraços calculados e aquele ritual interminável de aperto de mão que parece missa de domingo. Cada candidato entregava sua melhor versão de simpatia, e cada eleitor devolvia sua melhor versão de neutralidade. Era uma bela coreografia de gente fingindo não estar disputando nada.
E foi ali, no auge dessa catarse social, que surgiu o elemento mais comentado dos bastidores. O prêmio de melhor marketing visual foi para Márcio Conrado, cujo material de campanha era simplesmente uma máscara com o próprio rosto dele. Isso gerou uma onda de comentários imediata: “o máscara chegou”, “ele é o máscara”, “cadê o Jim Carrey jurídico de Sergipe”. Em poucos minutos, a máscara tinha virado a lenda da feojoada, acessório carnavalesco e até meme ambulante. Teve advogado que disse que ia levar para pendurar no escritório, para dar sorte. Outros, mais espirituosos, comentaram que se tivesse baile de máscaras, Márcio já ganhava no quesito originalidade. Foi a propaganda mais inusitada, chamativa e espirituosa da tarde. No mínimo, rendeu assunto por horas.
Mas voltemos ao espetáculo maior: a campanha. Uma campanha que, apesar de parecer cordial, está com o pavio mais curto que vela de bolo no vento. Basta olhar um pouco além do feijão para entender que os próximos dias serão tensos. As impugnações começaram tímidas, como quem chega devagar para não assustar ninguém. Um questionamento sobre PCD aqui, outro sobre cota racial ali, um murmúrio sobre gênero acolá. É o aquecimento. A partir de hoje, a chapa esquenta de verdade. A ressaca da feijoada sempre cai na segunda, e este ano caiu junto com a abertura oficial da temporada de pancadaria jurídica.
É natural. Propostas já foram lançadas, vídeos postados, jingles ensaiados, reuniões feitas, fotos posadas. Agora vem a fase das críticas, as diretas e indiretas. As olhadas tortas nos corredores. Os prints tirados com dedo tremendo. As fake news produzidas no silêncio da madrugada. É o pacote completo da eleição do quinto, sempre igual, sempre previsível, mas nunca menos fascinante.
De todos os diálogos paralelos, um dos mais comentados foi o conceito de voto camarão. Essa maravilha eleitoral que consiste em votar só em um, deixando os outros cinco da lista em branco, tudo para turbinar o nome preferido. O voto camarão é a prova de que o advogado pode até trabalhar com lógica, mas na eleição trabalha com estratégia. E estratégia é uma arte que mistura cálculo, fé e um pouco de maluquice.
Nos bastidores, rolaram também jantares políticos, encontros discretos, reuniões de líderes da Ordem Federal e Estadual tentando unificar candidatura. Não unificaram nada. Nem arroz empapado. Cada liderança saiu com uma interpretação diferente da reunião, como se a conversa tivesse acontecido em quatro idiomas distintos.
Agora, uma mensagem para a juventude da advocacia. Eu entendo a ansiedade, a empolgação, a vontade de acreditar em tudo e em todos. Faz parte. Mas é preciso cuidado. Gabinete aberto não existe. Promessa mágica não existe. A única coisa que existe é julgamento técnico e desembargador que decide de acordo com a lei, e não com o cardápio da feijoada.
E por falar em lei, deixo aqui uma provocação. Quer acabar com eleição do quinto? Quer transformar tudo em mérito puro? Simples. Crie um concurso público para desembargador via quinto. Prova objetiva, prova discursiva, oral, títulos, curso de formação. Quem tirar a melhor nota entra. Quem não tirar volta para o escritório. Seria justo, honesto e eficiente. Mas perderia o charme da feijoada. E talvez por isso nunca aconteça.
No fim, após três eleições do quinto que já testemunhei de perto, digo sem medo: os votos que dei nunca valeram a pena. O brilho no olho dura pouco e o retorno costuma ser menor que troco de padaria. Mas a feijoada, essa vale sempre. Alimento para o corpo e material para mais um editorial longo e temperado como este.
Hoje é dia dez. Faltam nove dias para a eleição. Uma semana. O jogo começou. A panela está no fogo. Os temperos estão espalhados. E os cozinheiros estão todos com a colher na mão, prontos para mexer o caldo. Que Deus proteja os advogados. O resto, meu amigo, nem a feijoada resolve.




