PUBLICIDADE

Editorial: Governo faz marketing da segurança, mas deixa a tropa esperando no caixa

A tropa esperou décadas. O governo respondeu com planilha, parecer técnico e reunião de conselho. Em Sergipe, quase mil policiais militares da ativa e da reserva seguem olhando para a licença especial como quem observa um prêmio trancado dentro de um cofre cuja senha ninguém quer revelar. O curioso é que juiz vende licença, promotor vende licença, procurador do Estado vende licença, defensor vende licença, delegado vende licença e professor também vende licença. Já o policial militar recebe um relatório cheio de gráficos explicando que o Estado pode quebrar se pagar justamente quem passou a vida inteira segurando a segurança pública nas costas. Parece até piada de repartição pública escrita por roteirista de stand up. O governo descobriu uma teoria revolucionária da economia: quando é direito de militar, o caixa entra imediatamente em depressão profund

O parecer do Conselho de Reestruturação e Ajuste Fiscal praticamente trata o policial como ameaça às contas do Estado. O militar pede um direito histórico e o governo reage como se alguém tivesse tentado sacar dinheiro do Banco Central usando uma viatura da PM. O documento fala em “efeito cascata”, “risco fiscal” e “cautela extrema”, mas traduzindo do burocratês para o português claro, significa apenas uma coisa: o governo não quer pagar agora. E o mais humilhante é que esse mesmo Estado sempre encontra criatividade financeira quando o assunto envolve outras estruturas de poder. Para uns, agilidade. Para outros, auditoria emocional. Para alguns, tapete vermelho. Para a PM, fila de protocolo e palestra sobre equilíbrio fiscal.

E como se não bastasse a novela da licença especial, ainda existe a questão da IFV, a famosa hora extra da sobrevivência operacional da segurança pública. Desde janeiro, inúmeros policiais relatam atraso no pagamento, enquanto o comando publicou nota tentando tranquilizar a tropa. O problema é que a realidade do contracheque costuma ser menos otimista do que a realidade da nota oficial. Tem policial que continua esperando o dinheiro até hoje, olhando o aplicativo bancário com mais frequência do que criminoso olha câmera de segurança. Sergipe conseguiu criar um fenômeno administrativo curioso: a melhor segurança pública do Brasil sustentada por profissionais que precisam fazer operação policial e, ao mesmo tempo, operação financeira dentro de casa para pagar combustível, escola de filho, mercado e prestação do carro.

E é aí que o governo parece não entender o tamanho humano do problema. Quando o Estado segura um direito do policial militar, não está atingindo apenas o militar. Está atingindo diretamente a família dele. Está tirando conforto da mesa da casa dele. Está adiando o carro que ele queria trocar depois de vinte anos de serviço. Está atrasando a reforma da casa. Está impedindo a viagem prometida aos filhos. Está empurrando para frente o sonho da esposa que passou décadas acompanhando escala, transferência, risco e madrugada sem reclamar. O parecer técnico fala em impacto fiscal. A tropa fala em impacto dentro de casa. E geralmente quem escreve parecer não sabe o preço do gás, da feira e do colégio vencendo ao mesmo tempo.

O texto do parecer ainda tenta passar a impressão de que a Polícia Militar avançou sem autorização prévia, quase como se o comando da corporação tivesse cometido uma travessura administrativa. É impressionante. A PM conhece a realidade das ruas, sabe da falta de efetivo, da pressão operacional e da sobrecarga da tropa. Mas quem decide tudo são técnicos sentados em salas refrigeradas discutindo “impacto prospectivo da execução orçamentária” enquanto o policial está na rua lidando com arma, ocorrência, madrugada e risco de morte. Sergipe criou uma fórmula inédita: o homem que enfrenta criminoso armado precisa pedir autorização para receber um direito que o próprio Estado prometeu durante anos. O bandido pelo menos não exige protocolo eletrônico antes do confronto.

E aí nasce a pergunta que já ecoa silenciosamente nos quartéis: afinal, quem manda no governo? O governador ou o CRAFI? Porque o documento passa a sensação de que existe um governo invisível acima do próprio governador. O comandante publica. O conselho veta. A Fazenda alerta. O policial espera. E o Palácio observa tudo em silêncio, como quem assiste incêndio pela janela tentando calcular o tamanho da fumaça eleitoral. O problema é que militar frustrado não gera apenas desgaste administrativo. Gera revolta silenciosa. E revolta silenciosa dentro da segurança pública costuma custar caro politicamente. Principalmente quando vem justamente da categoria que ajudou Sergipe a alcançar indicadores de segurança reconhecidos nacionalmente.

O mais irônico de tudo é que o próprio governo adora exibir os números da segurança pública. Coletiva, entrevista, vídeo institucional, postagem em rede social, gráfico bonito, operação policial filmada por drone. A segurança pública virou vitrine administrativa. E com mérito, porque Sergipe realmente avançou muito na área. Mas segurança pública não se faz apenas com câmera, sirene e postagem no Instagram. Segurança pública se faz com tropa valorizada. O policial militar sergipano ajudou a construir uma das melhores estruturas de segurança do país e agora assiste ao próprio Estado agir como se reconhecer seus direitos fosse uma ameaça ao equilíbrio planetário das finanças públicas. É quase como ganhar o campeonato e receber parabéns em vez de premiação.

O governo transformou um direito funcional numa novela burocrática constrangedora. O policial militar não pediu favor, não pediu bônus de luxo, não pediu privilégio. Pediu apenas aquilo que outras categorias já recebem sem tanto drama existencial do Estado. E o constrangimento na tropa cresce justamente porque a mensagem transmitida é muito clara: quando chega a vez do militar, o caixa quebra, a responsabilidade fiscal aparece e a cautela extrema vira prioridade nacional. No fim das contas, Sergipe corre o risco de descobrir da pior forma que viatura nova, coletiva de imprensa e postagem de apreensão não sustentam segurança pública sozinhas. Tropa também vive de respeito. E respeito começa quando o governo honra aquilo que prometeu.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *