Marcos Franco tenta reaparecer no tabuleiro político de Sergipe como quem chega tarde para uma partida de xadrez onde todas as peças já foram derrubadas. Foi deputado estadual por dois mandatos, hoje segura a pasta do Turismo como quem segura uma boia em mar revolto, e agora ensaia, em tom quase ensaiado de teatro amador, anunciar aos quatro ventos uma candidatura a deputado federal pelo MDB. O problema é que, no caso dele, o MDB não é mais partido: é herança de família, quase sobrenome em cartório. Só que, sem o peso do pai para mover as pedras, Marcos parece mais um jogador tentando reiniciar o jogo na hora em que a luz já foi apagada e o tabuleiro guardado no armário

É fato: Marcos Franco nunca trocou de sigla, sempre foi MDB. Mas não por convicção ideológica, e sim por genética: o partido corre no DNA da família, fundado e chefiado por seu pai, Antônio Carlos Franco, um verdadeiro gigante da política sergipana. Antônio Carlos era homem de palavra curta e poder longo: “sim” era sim, “não” era não, e ninguém ousava testar o contrário. Foi deputado federal mais votado na época, prefeito de Laranjeiras, líder de bancada e, mais do que isso, o maestro de uma orquestra política capaz de eleger até o cunhado, Jorge Alberto, em diferentes cargos. Quando morreu precocemente, não levou só a biografia, levou também a base eleitoral e a espinha dorsal que sustentava os “francos” no jogo.
Marcos até tentou segurar a tocha, mas largou a corrida para cuidar dos negócios da família. Deixou a política murchar, perdeu o timing e agora volta como quem chega atrasado a uma festa onde a música já parou e o garçom já recolheu os copos. O problema é que o banquete de votos virou marmita requentada: Laranjeiras não passa de 5 mil, Riachuelo mal serve 2 mil, e Marcos entra em campo com míseros 7 mil votos no papel. Para se eleger federal, precisa de pelo menos 45 a 50 mil. É matemática cruel: não fecha nem com a calculadora mais otimista, e muito menos com discurso nostálgico de herdeiro de um império que já foi.
Alguns aliados cochicham que o caminho de Marcos Franco deveria ser mais modesto: disputar uma vaga na Assembleia Legislativa. Com 20 a 25 mil votos, estaria dentro, tranquilo. Mas a ambição de carregar no peito a estrela herdada do pai empurra Marcos para a Câmara Federal. Só que falta o básico: colégio eleitoral, musculatura política e, sobretudo, o carisma que fazia de Antônio Carlos Franco uma fortaleza em carne e osso.
A linhagem política dos “Francos” se esfarelou como castelo de areia depois da maré. Albano Franco, que já foi semideus em Sergipe, hoje é só lembrança em página amarelada de jornal. Walter Franco, adoentado, já não move alavancas. A TV Atalaia, outrora um canhão político, hoje é bem administrada por Augusto Franco Neto, que até tem fôlego para a política, mas não joga esse jogo. O veredito é cruel: não existe mais um Franco de primeira linha com mandato, nem no parlamento, nem no Executivo.
Marcos entra em campo como azarão de campeonato de várzea. Tem ao lado o prefeito Juca de Bala em Laranjeiras e uns poucos vereadores que ainda acreditam na força do sobrenome. Mas sobrenome não coloca voto na urna. Eleição pede voto, dinheiro para irrigar lideranças, sola de sapato gasta em cada esquina do interior. Até agora, Marcos parece ter mais álbuns de lembranças do que plano de campanha.

O destino político de Marcos cabe numa equação impiedosa: se tiver 10% da fibra do pai, até pode beliscar uma cadeira na Alese; se tivesse 50%, entraria na Câmara Federal com folga. Mas sem o time que Antônio Carlos montava, prefeitos, vereadores, cabos eleitorais e a máquina de articulação que funcionava como relógio suíço, Marcos corre o risco de voltar sem nada. Nem memorial, nem futuro. Apenas a lembrança de quem um dia carregou o sobrenome Franco como passaporte e hoje tenta usá-lo como ingresso para um espetáculo que já terminou.
A volta de Marcos Franco soa como crônica de um clã que perdeu o tempo, a essência e o pulso da política sergipana. O trono dos Francos está vazio. O herdeiro, no entanto, parece ter chegado tarde demais para ocupar a cadeira que um dia foi de ferro e hoje virou peça de museu.




