O Brasil definitivamente não é para amadores. Enquanto o cidadão comum faz conta no supermercado e decide se leva o café ou o leite, Brasília brinca de orçamento como quem joga banco imobiliário com dinheiro infinito. A conta não fecha, nunca fechou e, pelo visto, não há qualquer intenção de fechar. O mais curioso é que o próprio governo já sabia disso, lá atrás, quando admitiu que o modelo fiscal estava condenado. Ainda assim, seguiu gastando como se amanhã fosse feriado permanente.
E aí entra a mágica brasileira, aquela que transforma irresponsabilidade em política pública. Gasta-se mais, arrecada-se mais, aumenta-se imposto, empurra-se dívida e vende-se isso como cuidado social. O resultado é previsível até para quem não entende nada de economia. A inflação aperta, os juros sobem, o crédito vira artigo de luxo e o povo paga a conta em silêncio. É o famoso ciclo da dor, patrocinado com dinheiro público e vendido com discurso bonito.
Enquanto isso, os números gritam. Milhões de brasileiros endividados, consumo de alimentos em queda, inadimplência batendo recorde e o governo insistindo em anunciar bondades como se fosse Papai Noel em ano eleitoral. Só que aqui o presente vem com boleto embutido. E com juros. Muitos juros. O que hoje parece alívio amanhã vira sufoco, porque não existe milagre fiscal, só maquiagem contábil bem ensaiada.
E no meio desse cenário, surge o espetáculo da narrativa. O mesmo governo que amplia gastos se apresenta como guardião da responsabilidade. O mesmo discurso que condena privilégios convive com práticas que fariam qualquer manual de economia chorar em posição fetal. É quase uma arte, essa capacidade de dizer uma coisa enquanto faz exatamente o oposto, com uma naturalidade que impressiona até os mais experientes.
Não bastasse o desequilíbrio econômico, ainda temos o festival de contradições morais. Critica-se a ambição alheia enquanto se constrói uma trajetória pessoal cercada de episódios, no mínimo, curiosos. O discurso ético sobe o tom, mas a prática continua descompassada. É o clássico roteiro brasileiro onde o moralista de palco vira personagem principal de uma comédia involuntária fora dele.
E quando o assunto é poder, o enredo ganha contornos ainda mais interessantes. Reclama-se dos critérios de escolha para cargos elevados, mas mantém-se o controle sobre essas mesmas escolhas. Questiona-se o sistema, mas se utiliza dele com habilidade cirúrgica. É como reclamar do jogo enquanto distribui as cartas. No fim, a crítica vira ferramenta e não convicção.
No campo político, a lógica é simples e brutal. Gasta-se agora, colhe-se voto depois e deixa-se o problema para o próximo. O futuro vira uma espécie de herança maldita programada, empacotada com discurso social e entregue com laço de responsabilidade aparente. A história já mostrou esse filme antes e o final nunca foi bonito, mas o roteiro insiste em ser repetido.
E assim o Brasil segue, equilibrando-se entre o improviso e a ousadia, entre a retórica e a realidade, entre o discurso e o bolso vazio. Um país onde a matemática é ignorada até cobrar seu preço e onde a conta sempre chega, mesmo que tentem escondê-la. Porque no fim, não tem narrativa que pague dívida, não tem discurso que segure inflação e não tem mágica que sustente um sistema que se recusa a encarar a própria realidade.




