PUBLICIDADE

Editorial: O dia em que a toga perdeu a vergonha

Assisti à sessão esperando uma resposta simples: Alexandre de Moraes será investigado por suas relações com Daniel Vorcaro? Depois de quase seis horas, desliguei a televisão sem resposta alguma. O STF não investigou, não arquivou e não explicou. Entregou ao país um palco de horror, com muita toga, muita vaidade e pouco Direito.

Primeiro, Flávio Dino partiu para cima de Edson Fachin. Falou em “autoritarismo, despotismo e tirania”. Fachin acusou o golpe e disse ter sido vítima de uma “aleivosia”. Dino respondeu: “A minha capa vale tanto quanto a sua”. Meu amigo, quando ministros começam a discutir quem manda na conversa, pode procurar o assunto principal porque ele já pegou o beco.

Depois, Gilmar Mendes e André Mendonça transformaram o plenário numa arena. Gilmar acusou Mendonça de condução “político-eleitoral” e disparou: “Pessoas decentes não fazem isso”. Mendonça reagiu: “Não aponte o dedo para mim”. Vieram ainda “desfaçatez”, “patifaria” e até “a máfia tem ética”. Parecia confusão na porta de bar, mas com transmissão oficial e a conta paga pelo contribuinte.

Alexandre de Moraes, que deveria prestar esclarecimentos, virou acusador. Disse que André Mendonça tentou incluí-lo numa delação e estaria “a serviço de um grupo político”. André Mendonça interrompeu: “Mentira, mentira, mentira”. Ora, se há testemunhas, que sejam ouvidas. Se houve mentira, que seja provada. O STF não pode funcionar como rádio corredor com capa preta.

Luiz Fux foi um dos poucos a defender claramente sua independência: “Não há homem nesse mundo que vai sindicar minha independência”. E está correto. A Polícia Federal não pertence a ministro, governo ou grupo político. Investigação não pode ser bacamarte contra adversário nem guarda-chuva para aliado. Quando ministros parecem disputar pedaços da PF, o cidadão começa a perguntar quem fiscaliza os fiscais.

Dino ainda afirmou que vivemos “o momento mais corrupto da história do Poder Judiciário”. Uma acusação desse tamanho exige nomes, fatos e providências. Mas ele soltou a bomba, pediu vista e suspendeu a decisão. Em sergipanês claro: jogou a pedra, escondeu a mão debaixo da toga e deixou o povo esperando por até 90 dias.

Cármen Lúcia encerrou com a fala mais humana. Admitiu que o Supremo provocou “um mal-estar cívico” e reconheceu: “O Judiciário existe para tranquilizar o povo, e nós geramos intranquilidade”. Pediu desculpas ao país. Foi um gesto digno, mas insuficiente. Desculpa não esclarece acusações, não apura relações suspeitas e não recupera credibilidade destruída aos berros.

Terminei aquela sessão com uma certeza: o Supremo não precisa agradar ao povo, mas precisa convencê-lo pela lei. Ontem, não convenceu. O Brasil viu ministros discutindo quem mente, quem conspira e quem controla a Polícia Federal. A Corte que deveria julgar os fatos acabou julgada pela própria transmissão. E saiu condenada pela opinião pública à pena mais dura para qualquer tribunal: a perda da confiança.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *