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Editorial – O dia em que o Brasil correu, parou e tropeço na própria justiça 

Acordei às 5h20, como sempre. Disciplina não é escolha: é hábito impregnado no osso. Quem serviu o Exército em 91, quem é R2, sabe que certas rotinas são mais do que rotinas, são doutrina. Vesti o verde-oliva. Não por nostalgia. Não por discurso político. Mas porque o verde-oliva, para quem o usou com honra, nunca vira fantasia de adulto. Ele é pele. Saí às 5h50. Ar frio, rua vazia, passos ritmados. Primeiro tiro, segundo tiro e a mente limpando como quartel antes da inspeção. Corrida é isso: o corpo conversa com a alma, e de vez em quando a alma responde. Naquela manhã, quem respondia era ela.

Voltando pra casa, ainda com o suor descendo pelas têmporas, veio a notícia: Jair Bolsonaro preso preventivamente. Não por um novo fato, não por uma evidência explosiva, não por uma reviravolta jurídica digna de filme. Mas porque o filho convocou uma vigília. Uma vigília. Uma reza. Uma porção de gente com vela na mão. Desde quando vela acesa virou crime contra a ordem pública? O Brasil acordou assim: abrindo a geladeira esperando um pedaço de bolo e encontrando um tijolo.

E aqui está a ironia amarga que deveria constranger até estátua de tribunal: depois de décadas assistindo escândalos bilionários evaporarem, traficantes fazerem visita guiada pelo sistema penal, contratos fraudulentos sumirem no triângulo das Bermudas do Estado e rombos no INSS que dariam medo até em contador de cemitério, o único rosto atrás das grades é o de um ex-presidente acusado de um golpe que não se consumou e que aconteceu quando ele sequer estava no país.

O Brasil é tão criativo que transformou o “quase” em “pena máxima” e o “talvez” em “leva logo”. Embrulhou tudo com a justificativa mais elástica do direito nacional: “garantia da ordem pública”, essa entidade mística que nunca aparece quando o crime domina bairros inteiros, mas brota com reflexo olímpico quando um ex-presidente respira fora do script.

E o motivo oficial? “O filho convocou o povo.” O país que não se abala com bilhões desviados agora prende preventivamente por convite de WhatsApp. Amanhã, se alguém organizar uma novena por político acusado de corrupção, capaz da Justiça decretar toque de recolher. A sensação é clara: a prisão já estava embrulhada, só faltava o bode expiatório para amarrar o laço. E encontraram: uma vigília.

Enquanto isso, o brasileiro comum olha para tudo com a cara de quem já sabe, não se trata só de Bolsonaro, mas do retrato mais cruel do país: uma Justiça que corre de Fórmula 1 para uns e vai de carroça sem roda para outros. Quando é figurão amigo do sistema, a lei vira poema, consulta pública, recurso infinito. Quando é Bolsonaro, vira sprint. Prisão domiciliar ontem, preventiva hoje, 27 anos amanhã, e tudo embalado no verniz da “imparcialidade performática”.

E não, ninguém aqui está pintando Bolsonaro de santo. Ele nunca tentou posar como tal. Mas o contraste grotesco entre a pressa nesse caso e a lentidão cirúrgica em todos os outros escândalos nacionais é um tapa de luva de couro na cara do cidadão que ainda tenta acreditar que a balança da Justiça existe para medir, não para performar.

Nas redes, o teatro está montado: uns comemoram como final de Copa; outros transformam Bolsonaro em mártir de república bananeira. Ironia das ironias: quanto mais tentam calar o sujeito, mais a narrativa dele cresce. Derrubaram o político, fabricaram o símbolo. Apostaram no silêncio, criaram um megafone.

E enquanto o Judiciário veste a capa de guardião da democracia com um timing tão conveniente que parece roteiro de série, a política esfrega as mãos. Todos posam de inocentes. Todos posam de técnicos. E o povo compra ingresso para o espetáculo que não pediu.

Foi ali, no fim da corrida, que a ficha caiu: o Brasil não pune quando precisa, pune quando convém. O país que deveria ser regido por hierarquia e legalidade hoje funciona por narrativa e oportunidade. Para quem viveu o verde-oliva e o respeita por dentro, isso é não apenas preocupante, é um alerta institucional.

Se a prisão de Bolsonaro é justa, que seja transparente, técnica, incontestável. Agora, se for agenda, se for conveniência, se for pressão, o dano não será apenas político. Será estrutural. E será lembrado por décadas como o momento em que o Brasil permitiu que a Justiça virasse personagem e não árbitro.

Terminei a corrida. Mas o Brasil continua na sua, sem direção, sem ritmo e, pior, sem consciência de que está correndo errado. Nesse momento, precisamos de cautela, cabeça fria e responsabilidade histórica. Porque quando a Justiça anda depressa demais em um caso, geralmente é para disfarçar o quanto caminhou devagar no resto. Bolsonaro está preso. O brasileiro, esse sim, está há anos. Preso na sensação de que, no Brasil, justiça só funciona quando interessa e quando interessa demais, desconfie.

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