A política tem memória curta para quem fala, mas longa para quem escuta. Em Sergipe, o anúncio de um pacote de cerca de R$ 1,5 bilhão por parte do governo federal recoloca o Estado no centro do debate, não apenas pelo valor, mas pelo momento. O presidente Lula, que ao longo do mandato teve presença limitada no Estado, agora agenda visita, obras e anúncios em um período que antecede as restrições impostas pela legislação eleitoral para inaugurações e novos projetos.
É preciso separar duas coisas. Primeiro, o mérito do investimento. Recursos dessa magnitude são relevantes para qualquer Estado, sobretudo em áreas como mobilidade, infraestrutura e abastecimento hídrico. Sergipe precisa, historicamente, de obras estruturantes. Nesse ponto, não há divergência: o dinheiro é necessário e bem-vindo. O problema começa quando se olha o histórico.
Porque o eleitor sergipano não avalia apenas o anúncio, ele compara com o passado. Projetos federais importantes, como a duplicação da BR 101, atravessaram anos entre promessas, paralisações e retomadas. Obras iniciadas e não concluídas criaram uma espécie de ceticismo estrutural. Não se trata mais de perguntar o que será feito, mas se será entregue, e quando. É nesse ambiente que o pacote de R$ 1,5 bilhão chega. Como solução? Como retomada? Ou como movimento de calendário? A resposta não está no discurso, mas na execução. E o histórico recente recomenda cautela. Em política, timing não é detalhe. É mensagem.
No plano estadual, o governador Fábio Mitidieri tenta se posicionar como elo entre Brasília e Sergipe. Mas enfrenta um cenário interno mais complexo do que parece. A crise no abastecimento de água, associada à atuação da Iguá Saneamento, criou desgaste cotidiano. É o tipo de problema que não se resolve com anúncio de longo prazo, porque afeta o presente imediato. Ao mesmo tempo, a reorganização política começa a ganhar forma. Em 2022, o embate entre Rogério Carvalho e Fábio Mitidieri foi direto e público. Rogério classificou o então grupo adversário como “governo corrupto”, em um dos momentos mais duros contra os “Mitidieris”. Do outro lado, a campanha de Mitidieri respondeu com críticas igualmente firmes, questionando posicionamentos e alianças do senador.
Esse histórico recente torna ainda mais significativa a mudança de cenário. O que antes era confronto virou aproximação. Rogério suavizou o discurso, pediu desculpas públicas e passou a integrar a construção política do grupo governista. Em política, mudanças acontecem. Mas mudanças rápidas, sem explicação proporcional, geram questionamento. Até novembro do ano passado, o desenho político ventilado era outro. Os nomes mais citados para o Senado eram André Moura e Alessandro Vieira. Esse cenário, inclusive, foi defendido publicamente por integrantes do próprio grupo político. A entrada de Rogério Carvalho altera completamente essa composição e abre uma nova leitura sobre as prioridades estratégicas.
Nos bastidores, a interpretação recorrente é pragmática: ampliar base eleitoral. A presença de Rogério seria uma forma de manter apoio em segmentos ligados ao campo político nacional do presidente Lula. Não é uma tese confirmada oficialmente, mas é uma leitura política coerente com o movimento observado. Essa mudança, no entanto, não ocorreu sem ruído. Declarações públicas de pessoas próximas ao governador indicam desconforto com a nova configuração. Quando divergências internas aparecem de forma explícita, elas deixam de ser apenas pessoais e passam a ter peso político. O eleitor percebe.
No fim, o pacote de R$ 1,5 bilhão pode, sim, representar avanço real para Sergipe. Pode. Mas chega carregado de um histórico que o sergipano conhece bem: promessas grandiosas que demoram a sair do papel e, muitas vezes, ficam pelo caminho. E há um ponto que não pode ser ignorado: esse dinheiro não se materializa nesses poucos meses que restam de governo, nem do mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, nem da gestão de Fábio Mitidieri. Obra pública tem tempo, tem processo, tem execução longa. Não é anúncio que vira realidade do dia para a noite.
Por isso, por mais que se venda esse pacote como solução imediata, a percepção que se forma é outra: de que se trata de um movimento com forte carga eleitoral, pensado para gerar impacto agora e colher resultado político depois. E quando aliados começam a dizer que um eventual novo mandato de Fábio seria “um novo governo”, a contradição salta aos olhos. Novo como, se o governo já está aí? Isso não aponta renovação, aponta reconhecimento implícito de que o atual não entregou o esperado. E, nesse contexto, o discurso de recomeço acaba abrindo espaço para uma leitura inevitável: talvez o “novo”, de fato, não esteja na continuidade, mas na mudança de rota.




