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Editorial: O Supremo sorri e o Brasil perde a graça

Sergipanos, a fotografia registrada por Brenno Carvalho, de O Globo, parece resumir a crise: ministros do Supremo reunidos, sorridentes e descontraídos depois da sessão, enquanto o país tenta entender as mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro. É evidente que uma fotografia não revela o conteúdo de uma conversa nem prova deboche. Mas, politicamente, a imagem é desastrosa. Do lado de dentro, sorrisos. Do lado de fora, uma República desconfiada. O Supremo apareceu alegre justamente quando o Brasil perdeu a graça.

As mensagens atribuídas a Vorcaro indicam encontros reservados, consultas sobre investigações e pedidos de ajuda dirigidos a Alexandre de Moraes. Há ainda o contrato milionário entre o Banco Master e o escritório de sua esposa. É informação demais para silêncio de menos. Moraes, que durante anos exigiu respostas imediatas, agora deve apresentar as suas com a mesma pressa. Quem transformou celulares alheios em peças centrais de investigações não pode reclamar quando o telefone da história toca em sua própria mesa.

Edson Fachin disse que ministros possuem limites, deveres e responsabilidades. Excelente. Agora falta descobrir onde esses limites estavam guardados enquanto o banqueiro circulava pelos salões do poder. O país não precisa de mais uma nota escrita em juridiquês perfumado. Precisa de investigação, transparência e decisão. Se a resposta do Supremo for apenas uma reunião reservada seguida de fotografia sorridente, a Corte correrá o risco de parecer um clube privado discutindo como preservar seus sócios.

O Senado também resolveu esperar. Davi Alcolumbre prefere que o Supremo encontre uma saída para a crise do próprio Supremo. É como pedir ao acusado que presida a comissão, redija o relatório e escolha a própria consequência. O caso envolvendo o projeto “Dark Horse” e Flávio Bolsonaro também deve ser esclarecido, mas uma suspeita não cancela a outra. Que investiguem Moraes, Vorcaro, Flávio e todos os demais citados. A República não é lavanderia partidária onde cada grupo lava a roupa dos amigos e exibe a sujeira dos adversários.

No Planalto, Lula tenta se afastar da fumaça e repete que ninguém está acima da lei. A frase chega quando o incêndio já alcançou o telhado. O governo está desgastado, sem força política e encurralado por uma eleição apertada. Lula e Flávio aparecem próximos, enquanto Augusto Cury cresce falando em serenidade. O psicólogo entrou na disputa e encontrou o país inteiro precisando de atendimento. Brasília virou um grande divã, mas a conta da consulta continua sendo enviada ao contribuinte.

Para o sergipano, essa crise tem endereço conhecido: o bolso. Enquanto ministros sorriem, senadores esperam e o governo improvisa, o povo enfrenta juros, dívidas, impostos e serviços públicos precários. O governo federal precisa parar de administrar crise como propaganda. O governo de Sergipe precisa abrir contratos e mostrar resultados. Fachin precisa agir, o Senado precisa assumir sua responsabilidade e Moraes precisa explicar cada relação revelada. A fotografia pode mostrar Brasília sorrindo, mas o Brasil já não está disposto a servir de piada.

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