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Editorial: PP: A carruagem desgovernada de Mitidieri

O PP, em Sergipe, está tão alinhado com Fábio Mitidieri quanto um meio-fio está com um carro que tenta estacionar de primeira: ou seja, a chance de dar certo é pura obra do acaso. O comandante da tropa, senador Laércio Oliveira, tem conduzido suas entrevistas como quem empina pipa em plena tempestade, na primeira rajada, o discurso parece ganhar altura; na segunda, já é vendaval arrancando a linha e jogando tudo no telhado do vizinho. A cena revela mais que desencontro: expõe um partido que oscila entre acenos de fidelidade e sinais claros de que cada um está pronto para puxar o cordão para o seu próprio lado.

Em um único dia, em duas entrevistas distintas, Laércio Oliveira conseguiu se superar. Na primeira, foi direto ao estilo clássico: “O único candidato que o PP tem hoje é o governador Fábio Mitidieri”. Até aí, sem surpresas. Mas, na mesma respiração, emendou que o partido não tem candidato ao Senado. Tradução: se o governador quer André Moura como primeiro nome para a vaga, ótimo, mas o segundo assento dessa charrete política ainda pode receber Alessandro Vieira, Márcio Macedo, Rogério Carvalho ou até Edvaldo Nogueira, este último, no momento, está para a pré-candidatura como um adolescente está para um namoro sério: sempre com o status “é complicado”estampado na testa.

O mais saboroso dessa novela é que Laércio deixou escapar, sem rodeios, que pode muito bem propor nomes para vice-governador e para o Senado, deixando claro que seu alinhamento é com Fábio, mas não obrigatoriamente com o que Mitidieri pensa. É aquele tipo de casamento político em que se divide o teto, mas não a senha do Wi-Fi: dormem na mesma casa, posam juntos para a foto, mas cada um navega na sua própria rede.

E aí vem a pérola do dia: Fabiano Oliveira, ex-vereador e escolhido vice na chapa de Luiz Roberto sob a bênção de Edvaldo Nogueira, afirmou, com a calma de quem lê bula de remédio, que não sabia que Edvaldo era pré-candidato ao Senado. Meu amigo, só o Fabiano não sabia disso. Sergipe inteiro, da barraquinha de milho no sertão ao taxista da Orla, já tinha essa informação carimbada. A imprensa divulgou, comentou e repercutiu. Para chegar nesse nível de desconhecimento, Fabiano teria que ter passado os últimos seis meses com o rádio desligado, o celular no modo avião e a TV permanentemente sintonizada no “canal elétrico”.

Fabiano ainda encerrou com a clássica frase que cabe como luva em qualquer mesa de boteco político: “Meu candidato é o governador Fábio Mitidieri, o resto é resto”. Traduzindo: vice, senador, suplente, carregador de mala ou animador de comício ficam a cargo do partido e do governador decidirem. É o famoso “me chama só na hora da foto” e, de preferência, quando o flashjá estiver ligado e a moldura garantida.

Enquanto isso, a cena política sergipana mais parece um jogo de xadrez jogado dentro de um ônibus elétrico daqueles que a prefeita colocou para rodar em Aracaju em movimento: as peças caem, a estratégia entorta e todo mundo finge que sabe exatamente para onde está indo. O PP, pelo que se vê, só tem dois nomes realmente fixos no tabuleiro, Fábio Mitidieri para governador e Levi, vereador e sobrinho de Laércio, para deputado federal. Todo o resto é terreno baldio em pleno ano pré-eleitoral, esperando apenas o primeiro que aparecer com trator, cerca e placa de “vende-se” para começar o loteamento político.

Para arrumar essa bagunça, Fábio vai precisar contar com paciência e serenidade de monge tibetano, duas virtudes que, justiça seja feita, ele aprendeu a ter de sobra ao longo da carreira. E vai precisar usar cada grama delas, porque segurar um partido fragmentado, com egos inflados e interesses divergentes, é tarefa que exige mais equilíbrio do que andar de bicicleta na corda bamba.

A lição é simples: Mitidieri vai ter que puxar a rédea da carruagem antes que cada cavalo resolva galopar para um lado diferente e o desfile político acabe atolado na vala. Do jeito que as coisas andam, o PP corre o risco de chegar a 2026 com mais pré-candidatos do que eleitor fiel e com um palanque mais instável que cama de campanha do Exército, daquelas que rangem só de olhar. E você, olhando para esse cenário, acha que essa carruagem chega inteira até a eleição ou que a roda vai soltar no meio do caminho? 

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