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Editorial: Quando a educação vira slogan e o professor vira custo

Todo começo de ano no Brasil tem três certezas: IPVA caro, material escolar mais caro ainda e professor sendo chamado para a foto oficial enquanto segura o contracheque com a outra mão. Em 2026, o roteiro se repetiu, mas com um tempero extra de revolta. O reajuste do piso do magistério, aquele que sempre vem embalado em discurso bonito, chegou pequeno, atravessado e com gosto de provocação.

Enquanto o governo federal tenta vender a ideia de valorização da educação, professores em todo o país reagiram como quem percebe que o presente veio embrulhado, mas vazio por dentro. A regra que aponta para um reajuste simbólico, próximo de zero, caiu como deboche para uma categoria que já convive com salas lotadas, estrutura precária e salários corroídos pela inflação. Não é apenas um número ruim. É um recado ruim.

E os números ajudam a explicar por que a irritação saiu da sala dos professores direto para a rua. Em 2022, último ano com caneta de Jair Bolsonaro no Planalto, o piso nacional do magistério teve um reajuste de 33,24%, um salto que levou o valor para R$ 3.845,63. Foi um aumento fora da curva, é verdade, mas real, concreto e sentido no bolso. Já no governo Lula, a trajetória foi outra. Em 2024, o reajuste ficou em 3,6%. Em 2025, subiu para 6,27%. E agora, em 2026, o fantasma de um reajuste quase simbólico virou o estopim da indignação nacional com o aumento de 0,37%. Que horror!

O governo tenta se defender dizendo que há diálogo, que o modelo precisa ser revisto, que estados e municípios também têm responsabilidade. Tudo isso é verdade. Mas também é conveniente. Porque o anúncio do piso é federal, a propaganda é federal, o discurso é federal. Só a confusão fica terceirizada. Quando o aumento é generoso, Brasília posa de benfeitora. Quando é magro, a culpa escorre para governadores e prefeitos, que viram vilões oficiais do mês.

A revolta cresce porque não acontece no vácuo. Ela vem acompanhada de outro ingrediente indigesto: o aperto nas universidades públicas. Mesmo com discurso de reconstrução, o governo Lula cortou e contingenciou recursos do ensino superior, chegando perto de meio bilhão de reais nos últimos orçamentos, segundo dados das próprias entidades do setor. Universidades federais seguem funcionando no limite, remendando custeio, adiando manutenção e sobrevivendo mais pela criatividade administrativa do que por estabilidade financeira. É difícil convencer alguém de que educação é prioridade quando o sistema inteiro opera no modo gambiarra.

E aqui entra um ponto que precisa ser dito sem romantismo. Professor é uma das categorias mais politizadas do país e também uma das mais dependentes de promessa estatal. Em 2022, votou em peso em Lula acreditando que o retorno do PT significaria valorização automática, quase por gravidade ideológica. A realidade mostrou que governo não funciona por afinidade emocional. Funciona por orçamento, regra e decisão política. Quando o aumento não vem como esperado, a frustração é dobrada, porque não é só contra o governo, é contra a própria expectativa.

Isso não exime o governo federal de crítica, pelo contrário. Um governo que se diz da educação não pode tratar o piso do magistério como variável técnica fria, nem permitir que o reajuste vire roleta russa anual. Valorização não é slogan, é previsibilidade. Professor não paga conta com narrativa, paga com salário.

Mas também é preciso dizer que parte da categoria se deixa capturar por um sindicalismo que prefere o grito ao projeto. Todo ano a briga é por percentual, mas pouco se avança em carreira estruturada, mérito transparente, formação continuada séria e financiamento sustentável. O resultado é esse looping infinito: anúncio, revolta, greve, negociação, frustração e recomeço no ano seguinte.

No meio desse embate, quem sempre paga a conta são os alunos da escola pública e suas famílias. Greve não aperta ministro, não constrange presidente, não assusta Congresso. Greve castiga o estudante pobre, que perde aula, conteúdo e tempo que nunca volta. É o drama silencioso de um sistema que briga por valorização, mas tropeça na própria forma de lutar.

O que 2026 escancara é simples e desconfortável. O professor segue sendo prioridade no discurso e ajuste na planilha. O governo Lula fala em reconstrução, mas entrega instabilidade. Promete valorização, mas terceiriza desgaste. E a categoria, cansada, começa a perceber que entre o palanque e o contracheque existe um abismo que não se resolve com coletiva nem com nota oficial.

Educação de verdade não se faz com anúncio de reajuste simbólico nem com corte disfarçado em universidade. Faz se com decisão política clara, orçamento estável e respeito à inteligência de quem ensina. Enquanto isso não acontece, o Brasil segue repetindo seu ritual preferido: chamar professor de herói e tratá-lo como despesa.

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