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Quando a universidade troca critério por narrativa

A semana não foi apenas barulhenta. Foi reveladora. Revelou o quanto o Brasil anda confundindo política pública com militância emocional e o quanto a universidade pública, que deveria ser o último reduto da racionalidade, começa a escorregar perigosamente para o terreno da disputa simbólica. Não se trata de opinião abstrata. Trata-se de fatos concretos, editais publicados, processos seletivos distintos e discursos públicos cuidadosamente construídos para interditar qualquer questionamento.

O debate começou, como tantos outros hoje, pelas redes sociais. Vídeos curtos, frases de efeito, indignação pronta. No centro, as chamadas vagas suplementares em universidades federais, especialmente em cursos de alta exigência técnica como Medicina. A UFSC, como outras instituições, criou processos específicos para determinados grupos, entre eles pessoas trans. Isso não é boato nem invenção conspiratória. Está no edital, está nos normativos, está no site oficial. O problema não é a existência de políticas de inclusão. O problema é como essas políticas estão sendo desenhadas, como estão sendo comunicadas e como estão sendo usadas no debate público.

O primeiro ponto que precisa ser dito, mesmo correndo risco de cancelamento, é simples: universidade não é espaço terapêutico, nem laboratório de engenharia social. É espaço de formação técnica, intelectual e científica. Isso vale para qualquer curso, mas vale especialmente para Medicina. Ali não se forma discurso, forma-se profissional que vai lidar com vidas humanas. Por isso, qualquer processo de ingresso precisa ser percebido como sério, rigoroso e comparável em termos de exigência acadêmica. Quando isso não acontece, não se produz justiça. Produz-se desconfiança.

É nesse contexto que surge o caso de Duda Odara, que virou símbolo involuntário de um debate muito maior do que ela própria. O ponto central não é sua identidade de gênero, sua raça ou sua autodeclaração. O ponto central é o discurso que ela escolheu adotar publicamente. Ao afirmar que toda crítica ao seu ingresso seria fruto de transfobia, racismo ou perseguição ideológica, ela transforma um debate legítimo sobre critérios e mérito em ataque moral. E isso é grave.

Há um dado que precisa ser colocado com clareza, porque faz toda a diferença e foi sistematicamente omitido no discurso vitimista: Duda estudou em um dos melhores colégios públicos do Rio de Janeiro, com alto nível de ensino, professores qualificados, estrutura e capital cultural. Não veio da precariedade extrema, não veio da exclusão educacional profunda que marca a trajetória de milhões de jovens pobres brasileiros. Questionar se alguém com esse histórico deveria disputar vaga por políticas pensadas para compensar desigualdade estrutural não é preconceito. É coerência.

Aqui é preciso separar as coisas com bisturi, não com porrete. Defender que cotas devem ser prioritariamente sociais, baseadas em renda, escola pública e vulnerabilidade real, não é negar a existência de discriminações identitárias. É reconhecer que o principal fator de exclusão educacional no Brasil continua sendo pobreza. Quando políticas públicas ignoram isso e passam a privilegiar identidade dissociada de condição material, elas deixam de corrigir desigualdade e passam a redistribuir privilégio. E privilégio travestido de justiça é uma das coisas que mais corroem a legitimidade institucional.

O discurso de que “criticar é atacar” é particularmente nocivo no ambiente universitário. Universidade vive de crítica, de dúvida, de comparação, de pergunta incômoda. Quando se estabelece que certos temas estão protegidos por blindagem moral, o debate morre. E quando o debate morre, a instituição adoece. Não é à toa que cresce o ressentimento silencioso entre estudantes que estudaram anos, em condições adversas, e veem processos seletivos cada vez menos claros.

Nesse ponto, vale recorrer ao passado não para copiá-lo, mas para lembrar de algo que estamos esquecendo. Clodovil, com sua acidez impiedosa, dizia algo que hoje parece proibido até de citar: “Ser homossexual não é vergonha. Vergonha é usar isso como espetáculo.” Ele não estava falando contra direitos. Estava alertando contra a transformação da identidade em moeda política para calar qualquer discordância. O exagero era dele, mas a intuição permanece atual.

Rogéria, com inteligência e ironia raras, era ainda mais direta: “Você não vira outra pessoa porque muda o corpo. A cabeça continua sendo você.” Era um aviso contra a ilusão de que rótulos substituem preparo, caráter ou competência. Hoje, parece quase subversivo dizer isso. Mas universidade não forma identidades, forma profissionais.

O problema se agrava quando essa lógica se estende para outras áreas sensíveis, como a saúde. Médicos passam a ser pressionados a negar limites técnicos com medo de sanção moral. Especialidades médicas funcionam por órgãos e funções, não por autodeclaração identitária. Reconhecer isso não é preconceito. É responsabilidade profissional. Quando o medo de errar politicamente supera o dever de acertar tecnicamente, quem paga a conta é o paciente.

Casos envolvendo banheiros, pensões militares e retificação de gênero seguem o mesmo padrão. Situações complexas, que exigiriam desenho institucional cuidadoso, viram slogans rasos. “Mulher presa por reclamar”, “médico punido por dizer a verdade”, “universidade dominada por militância”. Tudo vira caricatura. O debate sério, que deveria tratar de regra clara, previsibilidade jurídica e convivência social, some no barulho.

O Brasil precisa urgentemente recuperar a capacidade de discutir política pública sem chantagem moral. Não se trata de negar direitos, nem de desrespeitar pessoas. Trata-se de proteger instituições. Inclusão sem critério não é avanço. É negligência. Mérito sem correção social vira privilégio. Mas correção social sem mérito vira farsa.

A universidade pública não pode ser transformada em palco de guerra cultural permanente. Precisa voltar a ser espaço de excelência, método, comparação e responsabilidade. A régua pode e deve ser ajustada para compensar desigualdades reais. O que ela não pode é virar elástico ideológico, esticado conforme a narrativa da semana. Quando ninguém confia mais na régua, ninguém respeita o resultado. E quando ninguém respeita o resultado, a universidade perde sua função social mais básica: formar os melhores, independentemente de quem sejam, desde que estejam preparados. O resto é barulho. E barulho não forma médico, engenheiro ou professor. Forma apenas mais uma crise.

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