PUBLICIDADE

Editorial: Quando sete cabem numa foto, mas dezesseis disputam o enquadramento

A política adora símbolos. E a foto da semana é um deles. Sete pessoas perfiladas, três de cada lado, a presidente no centro, sorrisos calibrados, legenda ensaiada e um silêncio mais barulhento que coletiva improvisada. A reunião do Republicanos, comandada por Emília Corrêa, não disse quase nada em palavras, mas gritou em conjecturas.

Comecemos pelo básico. São chamados de “novos republicanos” porque, de fato, são. O grupo ainda cheira a tinta fresca. Não é uma família política de décadas, como aquelas que atravessam governos como quem atravessa a rua. É um ajuntamento recente, formado sob a urgência eleitoral, ainda se olhando com aquela desconfiança típica de quem não sabe se o aliado de hoje não será o adversário de amanhã. Spoiler. Geralmente é.

A promessa que colocou todo esse povo na mesma foto foi simples e irresistível, quase promoção de supermercado em véspera de feriado. Dois deputados federais no horizonte. E, nessa, o Republicanos foi de mão beijada para Emília. Política é assim. Ninguém perde por acaso, perde porque alguém soube oferecer melhor o pacote. Mas o que realmente chama atenção não é quem apareceu sorrindo para a câmera. É quem ficou fora do enquadramento. Faltaram Adaílton Souza e Rodrigo Valadares. E ausência em política nunca é distração, é mensagem cifrada. Às vezes o recado é para dentro do grupo, às vezes para fora. E, em alguns casos mais sofisticados, é para os dois ao mesmo tempo, com cópia oculta e confirmação de leitura.

Hoje, o grupo tem três pretendentes ao Senado para duas vagas. Eduardo Amorim, com a tranquilidade de quem conhece o terreno. Rodrigo Valadares, com a força da bolha bolsonarista. Adaílton Souza, com o carimbo de Valmir de Francisquinho. Matemática simples, política complicada. Dois saem vivos dessa conta. Um fica pelo caminho, reclamando da calculadora.

Eduardo, aliás, aparece na foto como quem não precisa provar que existe. Está. E ponto. Já André Davi surge como o nome que provoca mais cochichos do que discursos. Nome bom, sem dúvida. Nome competitivo? Ainda é cedo. Pesquisa mede lembrança, não garante aterrissagem. André teve votação robusta, foi atropelado por decisões judiciais controversas e saiu do cargo com a imagem de quem apanhou do sistema sem baixar a cabeça. Isso rende capital simbólico. Nem sempre rende vitória.

No centro da foto, Emília Corrêa faz o que presidentes fazem. Centraliza. Não só o corpo, mas a narrativa. É prefeita bem avaliada, administra Aracaju com eficiência e entrega resultados. Isso ninguém discute. O que se discute é capital político estadual. E aí, sejamos justos. Valmir de Francisquinho ainda pesa mais na balança. Conhece o Estado, tem lastro eleitoral, elegeu deputados, construiu base. Emília comanda. Valmir ancora. Liderança e musculatura não são a mesma coisa.

A foto tenta vender unidade. Mas unidade não se decreta. Se constrói. E, geralmente, começa lavando roupa suja em reunião fechada. Faz sentido que o Republicanos tenha se reunido sozinho antes de chamar o blocão. Ninguém faz DR em churrasco de família inteira. Primeiro se resolve em casa. Depois se convida os parentes.

Há também o fator sombra. O arquiteto invisível. Edvan Amorim não aparece, mas todo mundo sabe que está ali. Analisando com frieza, medindo riscos, calculando cenários com a precisão de quem entende que política não é improviso, é engenharia. Edvan é desses que falam pouco, escutam muito e decidem só depois que o barulho baixa. Conhece pessoas, conhece números, conhece o tempo da política, que quase nunca é o tempo da ansiedade. Política não se faz apenas com quem discursa e posa para foto. Política de verdade se constrói, sobretudo, com quem observa, articula, conecta peças improváveis e sabe exatamente quando avançar e quando recuar.

Enquanto isso, do outro lado, o governo parece uma salada de frutas esquecida no sol, com sabores que não se misturam. Ainda assim, é impossível ignorar que André Moura segue sendo o carro-chefe da base governista. É ele quem conhece o mapa, quem fala a língua dos prefeitos, quem entende o funcionamento da engrenagem política e mantém a máquina em movimento quando o motor ameaça falhar. André articula, agrega e sustenta, mesmo em meio às divergências. O problema é que nem todos querem andar no mesmo sentido. André não conversa com Alessandro Vieira, Rogério corre por fora, prefeitos governistas apoiam candidatos diferentes, cada um com seu projeto, seu palanque e seu ego. Para quem busca reeleição, isso não é diversidade estratégica. É desorganização com verniz de pluralidade.

E ainda houve a precipitação nacional. Declarar marcha com Lula antes do partido decidir foi, no mínimo, açodado. Política é xadrez, não dominó. Derrubar peça antes da hora costuma custar o jogo. Não fosse esse deslize, poderíamos pelo menos dizer que o PSD, partido de Gilberto Kassab, um dos operadores políticos mais poderosos e pragmáticos do Brasil, capaz de manter a maior bancada municipal do país e articular alianças tanto com a esquerda quanto com a direita, tem um nome natural para defender o projeto de poder em Sergipe: o próprio governador Fábio Mitidieri, candidato à reeleição pelo PSD e já apontado como favorito nas projeções eleitorais do Estado. 

Mitidieri não é um figurante nessa história. Ele administra Sergipe com índices de liderança consistentes, reorganizou a base do partido local e encarna a face que mais credencia o PSD a manter o controle do Palácio dos Despachos em 2026. Ao ignorar a necessidade de um alinhamento mais claro do partido antes de declarar palanque com Lula, a situação não só subestimou a força de Kassab como operador nacional como também expôs uma falta de coordenação interna que pode custar mais caro do que se imagina. 

A foto, no fim das contas, não resolve nada. Mas sinaliza tudo. É o primeiro passo de uma oposição que começa a se organizar enquanto o governo tropeça na própria pressa. Não há consenso. Não há chapa. Há movimento. E política, como a física, obedece a uma regra simples. Corpo em movimento tende a continuar em movimento. A luz amarela está acesa. Não por causa do que foi dito. Mas por causa do que foi mostrado. Sete numa foto. Vários fora do enquadramento. E uma certeza. A eleição de 2026 já começou. Mesmo que alguns ainda finjam que foi só uma reunião para a foto. E foi. Mas não só isso.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *