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Editorial: Ricardo Marques: o voo alto de quem continua no mesmo ninho

Vice-prefeito deixa a Secretaria de Comunicação, mas segue firme ao lado da prefeita Emília Corrêa. Sai do cargo, não da confiança.

Em política, é raro ver alguém sair de um cargo sem sair do compasso. Ricardo Marques conseguiu. Deixou a Secretaria de Comunicação de Aracaju, mas não deixou o governo. Muito menos a prefeita. Enquanto uns enxergam rupturas onde há apenas movimento, Ricardo mostrou que é possível mudar de cadeira sem mudar de lado.

A decisão, segundo ele próprio, foi pessoal e, pela primeira vez, essa expressão tão usada no vocabulário político parece ter sido sincera. Ricardo quer tempo. Tempo para trabalhar, para andar, para respirar a política além dos muros da Secom. Quem conhece o ritmo daquela secretaria sabe: é um cargo que consome, exige plantão emocional e produz poucas horas de sono. É o tipo de posto onde até o café precisa de assessoria de imprensa. Isso não é mais para Ricardo e sim para Gleice Queiroz que é uma substituta à altura.

De saída, Ricardo manteve o que sempre foi seu cartão de visita: lealdade. Não há mágoa, não há ruído. Apenas uma reorganização natural de rota. Ele deixa a função, mas segue no projeto. Continua vice, continua aliado, continua braço direito, talvez até mais livre para agir como tal. A própria prefeita Emília Corrêa foi clara: “não houve rompimento”. E, pela serenidade da fala, percebe-se que houve, sim, algo ainda mais raro em política: respeito mútuo.

Ricardo Marques é um homem de fé e gratidão. E fé, na política, é artigo de luxo. Poderia ter transformado a saída em espetáculo, mas preferiu o silêncio elegante de quem sabe que a verdadeira força não está no microfone, mas na coerência. Enquanto uns ensaiam rompimentos para chamar atenção, ele ensaia projetos, discretamente, com a mesma disciplina de quem prepara um voo longo.

Nos bastidores, é natural que surjam teorias conspiratórias. Afinal, Aracaju é a capital nacional das entrelinhas. Há sempre quem veja complô em qualquer movimento e divórcio em todo abraço. Mas, dessa vez, não há drama. O que existe é uma escolha estratégica: sair da comunicação para poder se comunicar melhor com o povo, com os municípios, com o futuro.

Ricardo tem dito que quer ser um vice-prefeito atuante, de rua, de escuta. E quem o conhece sabe que isso não é frase de efeito. Ele está nos bairros, nos interiores, nas conversas diretas. Não é o político do gabinete climatizado, é o da poeira no sapato.

E sobre os rumores de aproximação com o governador Fábio Mitidieri, é simples: amizade não é traição. Política é feita de pontes, não de muros. Se o diálogo com o governo estadual existe, é porque Ricardo enxerga o que muitos ainda fingem não ver que Sergipe é pequeno demais para tanto ego e grande o bastante para quem quer somar.

Enquanto isso, o tabuleiro partidário se reorganiza. O Cidadania, federado com o PSB, projeta novos espaços, e Ricardo surge como nome natural para conduzir esse processo em Sergipe. Não como adversário de Emília, mas como ampliador de território político. A prefeita segue seu governo, o vice segue sua caminhada e ambos seguem juntos naquilo que mais importa: a lealdade institucional e a ética pública.

A saída de Ricardo da Secom, portanto, não é o fim de uma aliança. É o início de um novo capítulo dentro da mesma história. Sai o secretário, fica o vice. Sai o assessor, permanece o aliado. É a diferença entre deixar o cargo e deixar a confiança e Ricardo, definitivamente, não deixou a confiança de Emília Corrêa. No mais, ele segue como sempre foi: grato, digno e sereno. E, se política fosse rádio, o locutor anunciaria agora: “Senhoras e senhores, este programa continua o mesmo. Só mudou o horário da transmissão. E é “desse jeito” Ricardo!”

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