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Editorial: Samuel contra os jogos, mas perdido no bingo das alianças

Capitão Samuel resolveu entrar no salão da política sergipana com coturno engraxado, discurso conservador e uma bússola que parece ter sido comprada em feira livre. Diz que é de direita, diz que é bolsonarista, diz que defende a pauta conservadora, mas quando o assunto é Flávio Bolsonaro, começa aquele xote estranho: dois passos para frente, três para o lado e uma desculpa atravessada no meio do salão. Prefere Michelle, cita outros nomes, faz rodeio, passa perfume na dúvida e acha que ninguém percebe. Só que o eleitor de direita percebe. E percebe rápido. Quem se apresenta como soldado do bolsonarismo não pode, na primeira alvorada, trocar o hino por música ambiente.

Aí entra Simone Valadares, com a firmeza de quem não chegou ontem na vida pública. Promotora de Justiça aposentada, ex-secretária de Assistência Social de Aracaju, mulher séria, técnica, experiente e sem paciência para malabarismo político barato. Simone foi direta no ponto. Não ficou alisando contradição com luva de seda. Chamou o jogo pelo nome e cutucou onde dói: Samuel quer parecer bolsonarista raiz, mas age como bolsonarista de ocasião, daqueles que vestem verde e amarelo no domingo e na segunda perguntam qual lado está com mais chance na pesquisa. Foi aí que veio a história da “melancia”. E convenhamos: em política, quando a casca é verde, mas a conversa começa a ficar vermelha, o povo já pega a faca.

Samuel tentou se defender jogando a discussão para outro campo. Disse que era estranho uma mulher criticar outra mulher, como se Simone estivesse atacando Michelle por ser mulher. Não colou. Foi uma saída de emergência mal sinalizada. Simone não criticou Michelle. Simone criticou Samuel. A diferença é simples, mas parece que no forró da conveniência tem gente que troca o par, o ritmo e até o assunto. O problema não é defender Michelle. O problema é usar Michelle como biombo para fugir da cobrança sobre Flávio. É como aquele cabra que diz que ama a festa, mas quando chega a hora de pagar a banda, vai ao banheiro e desaparece.

E a contradição não para aí. Capitão Samuel também aparece com discurso forte contra jogos de azar, contra apostas, contra a destruição de famílias pelo vício. Pauta justa, pauta séria, pauta necessária. Só que Sergipe viu o governo Fábio Mitidieri, do PSD de Samuel, tocar a criação da Lotese, a loteria estadual, vendida como instrumento de financiamento público. Então fica a pergunta que não quer calar: Samuel é contra jogo de azar ou só é contra quando o bilhete não passa pelo balcão político certo? Porque fica estranho o cabra subir no palanque para condenar aposta e, ao mesmo tempo, circular no ambiente político onde a banca ganhou CNPJ, selo oficial e cheiro de política pública. É o conservadorismo em modo sanfona: abre de um lado, fecha do outro e faz barulho no meio.

E tem mais uma peça nesse quebra-cabeça de feira livre. Fábio Mitidieri, governador do PSD, já está alinhado com Lula, e o PT em Sergipe oficializou apoio à reeleição dele. Ou seja, o palanque estadual de Fábio tende a ser também o palanque de Lula. Aí o eleitor olha para Samuel e pergunta, com razão: como é que o sujeito quer vender imagem de bolsonarista, circular nesse tabuleiro, eventualmente subir no palanque de quem apoia Lula, votar no candidato desse agrupamento e ainda sair dizendo que é direita raiz? Isso não é coerência política. É dança das cadeiras com sanfona, zabumba e fumaça de milho assado. Uma hora ele fala como conservador; outra hora aparece perto de arranjo que conversa com o lulismo estadual. A conta não fecha nem com calculadora de prestação de contas eleitoral.

No fim, essa briga entre Samuel e Simone, os “SSs”, abriu uma janela importante. Mostrou que nem todo mundo na direita está disposto a bater palma para contradição fantasiada de estratégia. Simone foi dura porque percebeu o truque. Samuel se enrolou porque quer dançar em vários arraiais ao mesmo tempo: o de Michelle, o de Flávio, o da pauta moral, o da conveniência local e, dependendo do vento, até o do palanque governista que conversa com Lula. Só faltou pedir voto com um pé na igreja, outro na Lotese e a mão abanando para Brasília. A pergunta que fica para o eleitor é simples e gostosa de fazer: Capitão Samuel é direita firme, direita flexível ou direita de sanfona, daquelas que só tocam conforme o dono da festa?

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