Amigos parem um instante. Deixe o barulho da eleição, a pressa do trabalho e a conta que vence amanhã. Agora olhe para Brasília e faça uma pergunta simples, daquelas que dispensam diploma, toga e latim: você considera normal que o dono de um banco investigado mantenha tamanha proximidade aparente com um ministro do Supremo Tribunal Federal? No celular de Daniel Vorcaro, a Polícia Federal encontrou mensagens, registros de encontros e referências a pedidos de ajuda dirigidos a Alexandre de Moraes pouco antes da prisão do banqueiro. Também surgiram metadados que, segundo o material divulgado, indicariam a edição, por um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”, da minuta de um contrato de aproximadamente R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia de sua esposa. Moraes nega ter recebido parte das mensagens e nenhuma suspeita autoriza uma condenação antecipada. Mas negar a condenação sem provas não significa conceder imunidade contra perguntas. Numa República adulta, a dúvida séria não é varrida para debaixo da toga. É investigada.
Agora se coloque dentro da história. Imagine que uma mensagem sua aparecesse no telefone de um investigado perguntando se ele deveria deixar o país antes de ser preso. Imagine que esse homem escrevesse para você: “Tenho gratidão da minha vida a você”. Imagine ainda que surgissem referências a pedidos de intervenção junto ao procurador geral da República, Paulo Gonet, e ao diretor geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Você acredita que receberia uma nota protocolar ou uma viatura antes do café? Nem todas as respostas atribuídas a Moraes são conhecidas, porque algumas teriam sido enviadas por visualização única. A CNN observou corretamente que não é possível identificar se, e de que maneira, o ministro interagiu em todas as comunicações. Ao mesmo tempo, o encadeamento das mensagens sugere uma interlocução que não pode ser tratada como fofoca de grupo de WhatsApp. A dúvida não condena Moraes. Mas condena o silêncio institucional.
A gravidade do episódio pode ser medida por uma cena rara: jornais de linhas editoriais diferentes chegaram, por caminhos distintos, à mesma porta. O Estadão defendeu que “Moraes tem de sair do Supremo”. A Folha afirmou que já não haveria lugar para o ministro na Corte e cobrou renúncia ou análise de impeachment pelo Senado. O Globo foi mais cauteloso, mas reconheceu que Moraes continua devendo explicações convincentes. Na CNN, o constitucionalista Gustavo Sampaio classificou o episódio como algo sem precedente semelhante na história do STF. Quando veículos que normalmente discordam até sobre a temperatura da água passam a fazer perguntas parecidas, o problema deixou de ser uma guerra entre direita e esquerda. Tornou-se uma crise de credibilidade. E credibilidade, como cristal, não costuma quebrar com estrondo. Primeiro aparece uma pequena rachadura. Depois, ninguém mais tem coragem de beber naquele copo.
Mas há um detalhe ainda mais desconfortável. Paulo Gonet, cujo nome também aparece nas mensagens examinadas, pediu a nulidade do relatório da Polícia Federal. A PGR apresentou uma tese jurídica que merece consideração: André Mendonça não poderia, sozinho, determinar uma investigação contra outro ministro, pois a autorização deveria partir do plenário do Supremo. O devido processo legal vale para todos, sobretudo quando o caso envolve autoridades poderosas. Só que um defeito no caminho não pode fazer desaparecer o destino. Se houve irregularidade, as diligências devem ser renovadas pela autoridade competente. O que não se pode permitir é que a discussão sobre quem tinha a chave termine com alguém jogando fora o cofre. Quando a fumaça chega perto das instituições responsáveis por investigar, anular o relatório sem garantir nova apuração transmite a sensação de que a primeira providência foi desligar o alarme. E há ironias que não precisam ser escritas, porque Brasília as redige sozinha.
E você, cidadão de Aracaju, Itabaiana, Lagarto, Estância, Propriá, Nossa Senhora da Glória ou de qualquer pedaço deste Sergipe acostumado a pagar imposto, enfrentar fila e apresentar documento até para provar que está vivo, acredita que seria tratado com tamanha delicadeza? A lei não pode funcionar como rede de arrasto para o cidadão comum e como mosquiteiro de seda para as autoridades. O STF não pertence aos ministros. A PGR não pertence ao procurador geral. A Polícia Federal não pertence ao seu diretor. Essas instituições pertencem à sociedade brasileira, inclusive ao trabalhador sergipano que talvez nunca pise em Brasília, mas sente no bolso e na confiança cada vez que Brasília decide que algumas perguntas são inconvenientes demais para serem respondidas. Defender o Supremo não é defender o silêncio de seus integrantes. É exigir que a Corte seja grande o bastante para investigar a si própria sem reduzir a Constituição a um biombo.
O Brasil chegou a uma encruzilhada moral. Moraes tem direito à presunção de inocência, ao contraditório e ao devido processo legal, exatamente como qualquer brasileiro deveria ter. Mas o país também tem direito à verdade, à transparência e a uma investigação independente. André Mendonça defendeu que a questão seja examinada em sessão presencial e pública do plenário. É o mínimo. Todos os citados devem ficar afastados da condução das diligências, e a Polícia Federal precisa trabalhar sem tutela interessada. Porque uma República em que autoridades investigam, supervisionam, julgam e depois decidem quais provas o povo pode conhecer não é uma República tranquila. É uma República olhando para o próprio espelho e pedindo que apaguem a luz. Portanto, responda, sergipano: se ninguém está acima da lei, por que a verdade precisa pedir licença para entrar no Supremo?




