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Editorial – Três pilares do Estado em crise: professores, médicos e policiais civis em confronto com o governo

O governador Fábio Mitidieri parece ter entrado naquele momento da política que os astrólogos chamariam de inferno astral. E não é exagero retórico. Quando um governo começa a enfrentar simultaneamente greve de professores, mobilização de médicos e de policiais civis todos em um só movimento, é sinal de que alguma coisa na engrenagem do poder deixou de funcionar com a precisão que o marketing institucional tenta vender.

Os números que circulam nos bastidores da política sergipana ajudam a entender o clima. A rejeição do governador já ultrapassa a casa dos quarenta por cento em levantamentos recentes. Em política, isso não é apenas um dado estatístico. É um alerta vermelho piscando no painel do Palácio. Especialmente quando o governador se prepara para disputar reeleição e encontra justamente os três pilares do serviço público em Estado de ebulição. Educação, saúde e segurança pública. Não é exatamente o cenário ideal para quem pretende pedir mais quatro anos de confiança ao eleitorado.

A educação virou o epicentro dessa crise. O governo afirma que os professores estariam satisfeitos com políticas de infraestrutura, gestão democrática e ganho real salarial. O problema é que, fora das notas oficiais, o discurso muda de tom. Professores denunciam déficit salarial que se aproxima de 54%, congelamento de carreira e o descumprimento de uma decisão do Supremo Tribunal Federal que determinou o restabelecimento de direitos retirados por legislação estadual considerada ilegal.

Enquanto o governo fala em infraestrutura, professores relatam escolas sem água regular, falta de apoio pedagógico para estudantes com deficiência, transporte escolar precário e problemas estruturais que chegam ao ponto de suspender aulas. É aquela velha diferença entre o discurso institucional e a realidade da sala de aula. No papel, a escola é modelo. Na prática, o quadro é bem menos fotogênico.

A chamada gestão democrática também virou alvo de críticas. Na teoria, o modelo deveria garantir autonomia e participação das comunidades escolares. Na prática, gestores relatam que permanecem sob forte dependência da Secretaria de Educação, sujeitos a nomeações e exonerações que passam inevitavelmente pelo filtro político. O resultado, segundo denúncias do próprio magistério, é um ambiente de pressão institucional que lembra mais uma sala de comando administrativo do que uma experiência de gestão participativa.

Como se não bastasse, o governo sustentou durante meses o argumento de crise fiscal para justificar a ausência de negociação com os professores. O detalhe curioso é que os próprios dados divulgados pela administração estadual indicam disponibilidade superior a um bilhão de reais para negociação com servidores. Quando o discurso da escassez encontra números de abundância, o que sobra é desconfiança.

A mobilização dos professores ganhou reforço de outras categorias. O Sindicato dos Médicos apareceu em apoio público ao movimento do magistério, lembrando que a saúde também enfrenta dificuldades semelhantes. Para o Sindimed, a política do governo tem empurrado a estrutura da saúde para uma lógica de terceirização que privilegia empresários enquanto servidores enfrentam desvalorização.

E aí entra o elemento mais simbólico dessa crise. Policiais civis, tradicionalmente mais reservados em manifestações públicas, também decidiram prestar solidariedade aos professores. A mensagem foi direta. Antes de serem policiais ou professores, todos são servidores públicos enfrentando problemas semelhantes de direitos e reconhecimento profissional. Quando até a segurança pública começa a falar em voz alta, é sinal de que a insatisfação já atravessou os corredores do funcionalismo.

No meio dessa turbulência, o governador segue com sua agenda institucional. Mas a recepção popular nem sempre tem sido calorosa. Em eventos recentes, manifestações com gritos de fora Fábio começaram a surgir. Em política, esse tipo de episódio é o equivalente sonoro de um aviso meteorológico. Não significa necessariamente tempestade definitiva, mas certamente indica mudança no clima.

O vereador Irã Barbosa, presente em vigília de professores em frente ao Tribunal de Justiça, resumiu bem o sentimento da categoria. Para ele, a greve é não apenas legal, mas profundamente legítima. Segundo o parlamentar, o magistério sergipano precisa voltar a ser respeitado e ouvido pelo governo estadual, algo que, segundo os professores, não tem acontecido apesar de repetidas tentativas de diálogo.

Enquanto isso, no campo político, o senador Rogério Carvalho observa o cenário com cautela estratégica. Questionado sobre alianças e cenários eleitorais, preferiu não fazer previsões sobre o comportamento do magistério nas urnas. Limitou se a dizer que confia no discernimento dos professores e reafirmou que sua posição política segue vinculada ao projeto nacional do presidente Lula.

No final das contas, o governador Mitidieri enfrenta um daqueles momentos clássicos da política em que o discurso institucional já não consegue conter o barulho das ruas. Professores gritam nas praças, médicos alertam sobre a saúde, policiais manifestam solidariedade e o eleitor observa tudo com atenção crescente. Inferno astral em política não tem astrologia envolvida. Tem gestão, tem percepção pública e, sobretudo, tem a velha regra que decide eleições. Quando três áreas fundamentais entram em crise ao mesmo tempo, o problema deixa de ser corporativo. Vira problema de governo. E não vamos nem falar da Iguá!

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