Durante meses, tentaram transformar a candidatura de Valmir de Francisquinho numa excursão pelos corredores da Justiça, com escala em Brasília, conexão no STJ e desembarque previsto no tapetão. Enquanto o eleitor queria discutir água, saúde, educação, emprego e segurança, o grupo governista parecia consultar o Waze para descobrir qual tribunal ainda aceitava recurso. Hoje, porém, o TRE de Sergipe fechou a porta dos fundos e escancarou a das urnas: por unanimidade, deferiu o registro de Valmir, que está oficialmente na disputa pelo Governo de Sergipe. Se Fábio Mitidieri perdeu o sono, é compreensível; e, se acordou inchado de preocupação, não foi alergia nem excesso de camarão: foi o peso político de descobrir que eleição se ganha com voto, carimbo serve apenas para confirmar a candidatura do adversário.
A impugnação partiu da Federação Renovação Solidária, presidida em Sergipe por Valadares Filho, o Vavazinho, secretário do governo Mitidieri. Juridicamente, não se pode dizer que Fábio tenha assinado a ação; politicamente, porém, é impossível fingir que ela nasceu sem endereço. Depois do 5 a 0 no STJ, a tentativa de retirar Valmir da disputa também fracassou no TRE: Vavazinho tentou crescer pela via judicial, mas a impugnação terminou do tamanho do comandante, baixinha, sem alcance e precisando de um banquinho para aparecer na fotografia. Nos corredores, a piada é que ele já começou a arrumar a gaveta da secretaria e que Jackson Barreto voltou a procurar o velho telefone amarelo para perguntar: “Vavazinho, dessa vez já assinaram sua carteira de trabalho ou ainda é estágio no governo?”. No fim, Valmir permaneceu de pé e Vavazinho voltou a ser personagem da própria temporada de stand-up.
O voto da desembargadora Ana Bernadete Leite de Carvalho Andrade merece reconhecimento pela firmeza, pela técnica e pela clareza institucional. A relatora não misturou preferência política com argumento jurídico nem tentou tirar coelho eleitoral da cartola. Constatou que a federação autora estava impedida de participar das eleições em Sergipe porque o PRD tinha a anotação suspensa por contas julgadas não prestadas. A direção nacional também não poderia chegar depois, trocar a roupa da direção estadual e fazer respiração boca a boca numa ação que já nascera sem sustentação processual e ainda menor que a altura de Vavazinho. A impugnação, portanto, foi extinta sem julgamento das acusações. Na análise do registro, o Tribunal encontrou documentação regular, DRAP deferido, parecer favorável do Ministério Público Eleitoral e nenhuma inelegibilidade remanescente. Resultado: candidatura deferida por unanimidade e a turma do tapetão obrigada a devolver o carpete à loja.
Há quatro anos, quase meio milhão de sergipanos escolheram Valmir nas urnas, mas viram o voto entrar num corredor judicial tão comprido que quase precisou levar marmita. Agora, esse eleitor reencontra o candidato e recupera o direito de confirmar, mudar ou retirar sua escolha sem que alguém vote antecipadamente em seu lugar usando toga, carimbo e ar-condicionado de tribunal. Dizem que uma campanha começa 45 dias antes do pleito; a de Valmir começa hoje, faltando 30. Serão 30 dias para mostrar que a vitória judicial não foi linha de chegada, mas autorização para entrar em campo. Valmir chega chegando, botando para andar e carregando a narrativa mais poderosa desta eleição: tentaram pará-lo em Brasília, em Sergipe e, se houvesse recurso no condomínio, provavelmente tentariam também na reunião dos moradores, mas não conseguiram.
Agora, Fábio Mitidieri terá de enfrentar aquilo que nenhum recurso suspende e nenhuma liminar manda arquivar: a vida real dos sergipanos. Terá de responder a quem abre a torneira e encontra vento, procura hospital e ganha senha para exercitar a paciência, vê professor em greve, cobra educação, emprego, segurança e pergunta porque o Banese ainda participa tão timidamente da vida das famílias e dos pequenos negócios. Valmir também terá de apresentar propostas concretas, porque decisão judicial não é plano de governo nem voto vem anexado ao acórdão. Mas uma coisa mudou nesta sexta-feira: o tapetão foi enrolado, a urna voltou ao centro do salão e Fábio Mitidieri, inchado ou não, terá de fazer aquilo que a política governista tentou evitar, enfrentar o marchante Valmir de Francisquinho diante do único tribunal que não aceita embargo de declaração: o voto povo sergipano.




