Há quem diga que a política é o espelho da sociedade. Pode até ser. O problema é que, de tanto se olhar, o político acaba apaixonado pelo próprio reflexo. E foi justamente aí que caiu Venâncio Fonseca, uma das figuras mais respeitadas da política sergipana, ex-deputado estadual por quatro mandatos, procurador do Estado aposentado e um dos últimos exemplares da espécie “político que fala olhando no olho”.
Diferente de tantos colegas de plenário, Venâncio não se escondeu atrás do álibi mais popular da política: a ingratidão do eleitor. Em uma entrevista que repercutiu nas redes e nas mesas de bar, ele soltou uma frase rara pela sinceridade: “A culpa daquele momento foi minha. A vaidade, soberba… E o remédio pra vaidade política, pra soberba política, sabe qual é? Derrota.”
Sim, você leu certo. Ele admitiu que perdeu por excesso de importância própria. E convenhamos: isso é raro. Em um país onde político arrependido é espécie em extinção, Venâncio decidiu calçar a “sandália da humildade” e reconhecer que a soberba é um vírus que infecta o ego antes de atingir o eleitorado. Enquanto muitos culpam fake news, vento contrário ou alinhamento dos planetas, Venâncio apontou o dedo para o espelho. E o espelho respondeu: “Pois é, meu caro, quem se apaixonou por mim foi você.”
A política brasileira e principalmente a sergipana, anda mais parecida com um concurso de popularidade digital do que com o exercício da democracia. Deputados desfilam no Instagram com mais dancinhas do que discursos; prefeitos governam via selfie; senadores confundem “público” com “plateia”. O mandato virou feed, o eleitor, um clique, e a democracia, mera espectadora.
Mas Venâncio deu outro show, não de dancinha, mas de humildade. Recentemente, ao participar de reunião convocada por Fábio Mitidieri, governador de Sergipe, onde todos os secretários se vangloriavam de seus feitos, Venâncio ouviu cada um, fez a retrospectiva e soltou a seguinte: “Caros colegas, fico muito feliz com tudo isso que vocês estão fazendo… Mas o governo é de Fábio Mitidieri, certo? Nós fazemos parte do governo, ou seja, estamos contidos no governo. Eu, que tenho sala aqui no segundo andar deste Palácio, não tenho conhecimento de nada disso que vocês expuseram hoje. Peço que ativem o modo não vaidade e procurem o quê? Divulgar que esse grupo é Fábio Mitidieri. O governo é de Fábio Mitidieri e não apenas de vocês.”
E aí está Venâncio novamente: agindo como o estadista que pouco aparece mas muito se vê em quem entende que estar no poder não é estar em cima, é estar dentro. Ele elogiou, mas o chamou à razão. Ele reconheceu o talento dos secretários, mas lembrou quem é o dono do enredo. A vaidade pediu aplauso. Venâncio entregou espelho.
A vaidade, na política, é quando o sujeito esquece que foi eleito para servir e passa a se comportar como se o povo lhe devesse fidelidade. É o político que acredita que o aplauso substitui o trabalho e que os “likes” valem mais que resultados. A soberba é ainda mais perigosa: nasce quando o político acredita estar acima da crítica e da realidade. É o governante que se acha infalível. Venâncio, com sua lucidez pós-derrota, deu uma lição simples e poderosa: “O eleitor não tem culpa nenhuma.” Essa frase deveria estar em letras douradas na porta de cada gabinete do país.
Venâncio, ao reconhecer que sua derrota foi “o remédio da vaidade”, tornou-se personagem raro: o ex-vaidoso arrependido, aquele que sobreviveu à própria soberba e saiu do outro lado mais humano e de sandália, não de salto. O político quer ser lembrado pela grandeza, mas é justamente o desejo de ser lembrado que o condena ao esquecimento. Quando ele se coloca no centro da narrativa, o povo sai de cena. A vaidade o transforma de representante em protagonista, e o eleitor passa de cidadão a figurante.
E quando as urnas se fecham e o silêncio chega, não é o som da derrota que ecoa é o som da própria arrogância. Foi nesse eco que Venâncio se ouviu e entendeu que precisava quebrar o espelho antes que o reflexo o engolisse. Quem esquece isso, mais cedo ou mais tarde, prova o mesmo remédio que Venâncio provou, a derrota. Mas, se tiver humildade suficiente, pode sair dela como ele: um “vaso novo”, moldado pelo “oleiro da experiência”.
No fim, a derrota é o melhor professor que o sucesso nunca será. A vaidade é o pecado original da política, não mata de vez, mas corrói em silêncio, até o dia em que o povo, cansado, decide olhar para outro espelho. Se o ego dos políticos tivesse voz, Brasília seria um coro dissonante gritando: “Me deixem governar!”. O problema é que, quando o ego governa, a democracia vira espetáculo, o discurso vira performance e o povo, plateia.
Venâncio mostrou que ainda há esperança, desde que o político aprenda a rir de si mesmo, reconhecer o próprio salto e descer um degrau. A humildade, afinal, nunca derrubou ninguém. A soberba, sim. Na política, o verdadeiro renascimento não vem da vitória, mas da queda. E, como diria o próprio Venâncio, é preciso “pisar no chão direitinho com a sandália da humildade” antes que a soberba mande o eleitor embora, de fininho, mas com o voto na mão.





Respostas de 2
Não foi apenas que derrotou este amável deputado, mas também a falta de reconhecimento as lideranças que sempre estiveram do seu lado nos momentos ruins. Hoje, nada mudou interiormente neste Deputado. Apenas a sede de dar o troco no futuro. Honesto seria deixar o espaço para alguém mais jovem e sei o ódio e rancor que o acompanha. Certamente será mais uma vez derrotado pelos eleitores e, como reconhecimento e recompensa, ganhará pela última vez um cargo no governo eleito em 2026, pois sempre foi o seu lema, ou seja, ficar do lado dos vitoriosos sendo governador ou prefeito. Vai pra casa Venâncio.
Era um homem deste , a melhor indicação à Casa Civil mas poucos entenderão .