Há quase um ano, a advocacia sergipana vive um impasse vergonhoso. A cadeira do quinto constitucional, que deveria estar ocupada por um representante escolhido legitimamente pela classe, continua em aberto, sob a justificativa de disputas internas e manobras regimentais que transformaram a Casa da Democracia em palco de silêncio, omissão e atraso.
Enquanto isso, a vaga segue ocupada interinamente pelo magistrado Manuel Costa Neto, um juiz de carreira que honra o Tribunal com sua erudição, cultura jurídica e atuação impecável. Ninguém discute sua competência. Mas é preciso repetir o óbvio: essa cadeira não é da magistratura, é da advocacia. E cada dia de inércia corrói a credibilidade da OAB e a confiança dos advogados que nela depositam sua representação.
O que está em jogo é mais do que uma eleição: é a essência democrática da Ordem. O presidente Daniel Alves insiste em defender o modelo “híbrido”, em que conselheiros filtram nomes e reduzem a escolha a uma lista de doze, tolhendo o direito da advocacia de votar livremente em quem julgar mais apto. Do outro lado, Aurélio Belém ergue a bandeira da eleição direta, lembrando que a OAB nasceu e cresceu como a casa do voto universal dos advogados.
E aqui cabe a pergunta incômoda: quem está traindo a história da Ordem? Quem está impedindo que os advogados exerçam seu direito mais elementar, o de escolher seus representantes? Será Daniel Alves, com sua defesa de um modelo restritivo que concentra poder em conselheiros? Ou é Aurélio Belém quem tem razão ao exigir transparência e participação plena da classe?
A resposta, para quem acompanha a trajetória da OAB, não poderia ser mais clara. A Ordem não pode ser sequestrada por manobras de bastidores. Não pode se calar diante de uma vaga que lhe pertence, sob pena de perder a própria razão de existir. OAB sem voto direto não é OAB: é cartório de conveniência.
Enquanto Daniel Costa permanece calado, fugindo do debate público e deixando o processo arrastar-se como se fosse detalhe burocrático, cresce entre os advogados a sensação de traição institucional. O silêncio, aqui, fala mais alto que qualquer discurso: revela falta de compromisso com a democracia interna e desprezo pelo papel histórico da Ordem.
Aurélio Belém pode ser crítico, incisivo, até incômodo. Mas ao exigir eleições diretas, ele resgata o verdadeiro espírito da OAB: o de uma entidade plural, participativa e legítima. É disso que a advocacia sergipana precisa. É isso que exige respeito.
Se a Ordem quiser recuperar sua credibilidade, precisa devolver o voto a quem de direito: os advogados. Daniel Alves precisa ouvir a classe e ao ouvir, verá que a vontade é unânime: todos querem o voto direto. Porque a cadeira do quinto não pertence a presidentes, nem a conselheiros, nem a grupos de poder. Pertence à advocacia. E é só dela.



