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Educação no discurso, asfixia no orçamento

O governo federal gosta de dizer que valoriza a educação. Repete isso com a convicção de quem acredita que repetir transforma realidade em fato. Mas educação não se mede por discurso, se mede por orçamento que chega, por dinheiro que entra no caixa no mês certo, por universidade que funciona em março e não apenas em dezembro. E é exatamente aí que o governo atual tropeça, cai e ainda tenta convencer o público de que está dançando.

Não há dúvida histórica. Nos primeiros governos Lula, lá atrás, o país viveu um ciclo de expansão das universidades federais. Novos campi, novas instituições, aumento real de gastos. Isso é dado, não opinião. O problema é que o Lula de agora governa outro país, com outra lógica fiscal, outro Congresso e outra prioridade prática. E o resultado concreto não é expansão. É asfixia administrada com sorriso institucional.

O governo insiste na tese da recomposição. Diz que herdou um fundo de poço, que recompôs em dois mil e vinte e três, que suplementou aqui, liberou ali. Tudo tecnicamente verdadeiro, politicamente insuficiente e operacionalmente desastroso. Porque universidade não funciona com promessa, funciona com fluxo. E fluxo é justamente o que está sendo estrangulado.

Em dois mil e vinte e quatro, o orçamento aprovado para as universidades federais já veio menor que o do ano anterior. Isso não é narrativa da oposição, é número da Lei Orçamentária. Some a isso um bloqueio bilionário no meio do ano, travando despesas básicas como energia, limpeza, segurança e assistência estudantil. O governo chama de contingenciamento. As universidades chamam de paralisia. O estudante chama de abandono.

Em dois mil e vinte e cinco, a situação não melhora. Pelo contrário, se sofisticou. O corte aprovado pelo Congresso é empurrado para a conta alheia, enquanto o Executivo edita decretos que liberam o dinheiro a conta gotas. Trinta por cento no começo do ano, noventa por cento quase no apagar das luzes, o resto quando o calendário acadêmico já virou peça de ficção. É o chamado corte funcional. No papel, o dinheiro existe. Na vida real, não chega.

O argumento oficial é quase cínico. O governo diz que não cortou porque o valor total está previsto. Mas universidade não paga conta com previsão. Não compra insumo com promessa. Não mantém restaurante universitário com nota técnica. Dinheiro que não chega é dinheiro cortado, ainda que o Tesouro finja o contrário.

E o futuro imediato não anima. Na tramitação do orçamento seguinte, um corte de quase meio bilhão de reais nas universidades federais foi aprovado. Assistência estudantil perdeu cem milhões. Isso não atinge prédio, atinge gente. Atende justamente o estudante pobre que o discurso oficial diz proteger. O presidente pode vetar, recompor, negociar. Até agora, o que existe é silêncio e normalização do aperto.

Enquanto isso, o governo gosta de chamar o período de ano da educação, ano dos professores, ano do cuidado. A retórica é generosa. A planilha é avarenta. O reajuste salarial segue fórmula técnica e caminha para perder da inflação. O poder de compra do professor cai enquanto o discurso sobe. É a pedagogia do contraste.

Nesse cenário, universidades federais como a de Sergipe são empurradas para um limbo administrativo. Crescem em demanda, em pesquisa, em responsabilidade social, mas operam com orçamento comprimido, liberação tardia e incerteza permanente. Planejar vira exercício de adivinhação. Investir vira pecado fiscal. Manter o básico vira heroísmo silencioso.

A educação brasileira não está sendo destruída com uma tesoura explícita. Está sendo corroída com método. Um pouco menos aqui, um atraso ali, um bloqueio temporário acolá. Quando se soma tudo, o efeito é devastador. E ainda se exige gratidão porque o colapso não foi total.

O governo federal não acabou com a educação por ignorância. Acabou por escolha. Escolheu priorizar equilíbrio fiscal sem proteger o funcionamento das universidades. Escolheu negociar orçamento sem blindar a ciência. Escolheu tratar ensino superior como variável ajustável e não como pilar estratégico. No fim, sobra o discurso, faltam as aulas. Sobra a propaganda, falta o custeio. Sobra a fala sobre futuro, falta o presente funcionando. A educação não precisa de slogan. Precisa de dinheiro no tempo certo. E isso, hoje, o governo não entrega.

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