A política tem um hábito curioso: a memória costuma funcionar melhor para lembrar os erros dos adversários do que os próprios. Foi exatamente essa reflexão que o radialista Narciso Machado colocou sobre a mesa ao comentar as recentes declarações de Edvaldo Nogueira sobre a gestão da prefeita Emília Corrêa. Em vez de apenas responder ao fato do dia, Narciso preferiu puxar o retrovisor da história e lembrar que quem já enfrentou investigações públicas conhece, talvez melhor do que ninguém, o peso de uma acusação antes da conclusão definitiva dos fatos.
Ao recordar episódios como a Operação Torre de Babel, os desdobramentos envolvendo o hospital de campanha durante a pandemia e outras controvérsias administrativas que marcaram o período em que Edvaldo governou Aracaju, Narciso sustentou uma ideia simples: prudência nunca fez mal a político algum. Entre transformar toda investigação em condenação antecipada e tratar toda denúncia como perseguição existe um caminho chamado responsabilidade institucional. Esse talvez seja o ponto mais relevante do debate.
Há ainda um aspecto estritamente político. Edvaldo Nogueira é pré-candidato ao Senado, mas boa parte de suas manifestações públicas continua concentrada nos embates da política municipal de Aracaju. Isso alimenta uma percepção, compartilhada por alguns analistas, de que o discurso permanece fortemente conectado ao cenário da capital. Em política, comunicação também constrói imagem, e a forma como um candidato escolhe seus temas inevitavelmente influencia a leitura que o eleitor faz sobre suas prioridades.
Narciso Machado também relembrou uma crítica antiga feita por setores da imprensa e por ex-aliados: a diferença entre o Edvaldo fora do poder e o Edvaldo no exercício do poder. Trata-se de uma percepção política, sujeita naturalmente ao contraditório, mas que reaparece no debate público sempre que seu estilo de liderança volta ao centro das discussões. A política brasileira é pródiga em mostrar que governantes são julgados não apenas pelas obras que entregam, mas também pela forma como tratam críticas e convivem com o contraditório.
Há uma conhecida canção de Gonzaguinha que diz que “viver e não ter a vergonha de ser feliz” é um desafio permanente. Na política, talvez fosse preciso acrescentar outro verso: “governar e não ter medo da própria memória”. Afinal, a coerência continua sendo um dos ativos mais valiosos da vida pública. Quem ontem pediu cautela quando era investigado dificilmente convence quando hoje parece esquecer a mesma cautela ao comentar investigações envolvendo adversários. A memória do eleitor pode até falhar em alguns momentos, mas costuma reaparecer justamente na hora do voto.
O comentário de Narciso Machado, concorde-se ou não com ele, cumpre um papel importante no debate democrático: lembrar que o passado faz parte da biografia de qualquer liderança pública. Em democracia, críticas são legítimas, investigações devem seguir seu curso e a presunção de inocência vale para todos, sem distinção. Talvez essa seja a principal lição do episódio: antes de apontar o dedo para o vizinho, vale sempre conferir se o próprio telhado continua inteiro.




