Em Aracaju, basta surgir um quiosque novo que já nasce junto um vereador indignado, uma denúncia protocolada e um grupo de WhatsApp fervendo mais que panelão de feijoada em domingo. A polêmica agora gira em torno das concessões de bares e quiosques em praças e na Orla de Atalaia. O vereador Elber Batalha levantou a discussão e questionou o critério dessas permissões. A pergunta é justa. O problema é que, em política, muita gente só enxerga o quiosque depois que a cerveja já está gelada, a inauguração já teve selfie e o discurso de indignação já vem com filtro de Instagram.
O presidente da EMSURB, Hugo Esorg, explicou que boa parte dessas autorizações não nasceu ontem nem foi parida na gestão atual. Muitas vêm da administração passada, dentro de programas já existentes de ocupação ordenada dos espaços públicos. A própria Prefeitura realizou audiência pública para discutir a instalação de quiosque na Praça Zilda Arns, com análise técnica, exigência de preservação da paisagem urbana e critérios estruturais definidos. Ou seja, não é alguém acordar inspirado e decidir abrir um bar entre o escorregador e o vendedor de pipoca. Existe rito, existe procedimento e, principalmente, existe responsabilidade administrativa.
A EMSURB também trabalha com chamamento público, cadastramento e cobrança de preço público. Em eventos e permissões temporárias, há tabela definida, sorteio e fiscalização. Espaço público não pode ser tratado como presente de aniversário nem como herança de família. O debate correto não é demonizar o quiosque, mas exigir transparência no processo. Agora, transformar cada barzinho em escândalo institucional também beira o teatro. Praça viva, com circulação e atividade econômica, muitas vezes significa mais segurança e menos abandono. O que ninguém quer é praça bonita de manhã e deserta de noite, servindo apenas de endereço fixo para muriçoca e poste apagado.
E aqui entra um ponto ainda mais importante: essa movimentação de Elber Batalha em falar em Ministério Público, CPI e investigação não deveria sequer ser novidade. Isso já deveria estar no radar natural do próprio Ministério Público há muito tempo. Não se trata de um detalhe escondido em gaveta de repartição. Trata-se de algo que salta aos olhos de toda a população sergipana. Quiosques, bares, permissões e ocupações em áreas nobres da cidade são fatos visíveis, públicos e permanentes. Não estamos falando de um papel perdido no arquivo morto, mas de estruturas concretas que qualquer cidadão vê passando de carro. Se há dúvida sobre critério, o controle institucional não deveria depender apenas do discurso de tribuna.
E aqui também cabe justiça com Hugo. Ele não inventou a praia, não construiu a praça e não colocou quiosque escondido de madrugada com pá e cimento clandestino. Ele administra uma estrutura antiga, complexa e cheia de heranças políticas de várias gestões. Defender transparência é correto. Fazer caça às bruxas por conveniência política é preguiça intelectual. Hugo tem sustentado que não existe privatização da orla, mas sim organização técnica, inclusive dentro das exigências da Secretaria de Patrimônio da União e do Projeto Orla. No fim, talvez o maior problema não seja o quiosque. Talvez seja o velho hábito brasileiro de só descobrir a regra depois que o vizinho conseguiu a vaga.




