Entre Aracaju e Brasília, uma conversa revelou a mãe, a companheira de Marcelo Déda e a gestora pública. Três mulheres diferentes, unidas pela mesma maneira silenciosa de atravessar a vida: cuidando.
Às vezes, o jornalismo encontra uma história. Em outras, é a história quem encontra o jornalista, senta ao seu lado e começa a conversar. Foi mais ou menos assim que aconteceu com Eliane Aquino. Dias antes, eu a havia visto em um restaurante da Orla de Atalaia, cercada por amigos, conversando com a tranquilidade de quem não precisa anunciar a própria presença. Depois, no Aeroporto Santa Maria, ela reapareceu usando um discreto vestido vermelho, mochila nas costas, bolsa no ombro e a mão de Mateus firmemente segurada. Não havia comitiva, cerimônia ou aquele pequeno teatro de importância que algumas autoridades montam até para comprar um café. Ela poderia ter procurado uma facilidade, usado o cargo ou atravessado a fila. Preferiu esperar. E ali, sem dizer uma palavra sobre política, já dizia muito sobre si.
O acaso, que de vez em quando demonstra possuir mais talento que muito assessor de imprensa, colocou nossos assentos na mesma fileira. Um cumprimento educado virou conversa. A conversa foi crescendo, atravessou as nuvens e, quando percebemos, o voo entre Aracaju e Brasília havia se transformado em uma entrevista sem gravador, sem roteiro e sem frases previamente embaladas para parecer espontâneas. Falamos de filhos, família, poder, saudade, Sergipe, Brasília, Marcelo Déda e das pequenas decisões que acabam definindo uma vida inteira. A cada assunto surgia uma nova Eliane. Nenhuma delas parecia interessada em impressionar. Talvez por isso todas tenham impressionado.

Primeira versão: a mulher que aprendeu a cuidar antes de aprender a governar
Quando Eliane fala dos filhos, algo muda. A gestora pública recua alguns passos e a mãe ocupa toda a conversa. Ao mencionar João Marcelo e Mateus, o olhar se ilumina de uma forma que nenhum cargo público consegue produzir. Mateus, que tem síndrome de Down, não aparece em sua narrativa como um desafio ou uma lição pronta para emocionar plateias. Ele aparece como filho, inteiro, amado, presente. Foi com ele que Eliane ampliou sua compreensão sobre inclusão, autonomia e respeito às diferenças. João Marcelo, por sua vez, cresceu convivendo com a intensidade da vida política do pai e com o esforço da família para preservar alguma normalidade. Normalidade, convenhamos, é coisa difícil quando se tem um governador dentro de casa e metade de Sergipe acha que pode ligar durante o almoço.
Há também a Eliane filha. Depois da morte de Marcelo Déda, quando muitos imaginavam que ela mergulharia de vez na política, escolheu diminuir o ritmo para acompanhar a mãe, acometida pelo Alzheimer. Havia feito uma promessa íntima de permanecer perto dela até o fim. Não contou isso como quem exibe um sacrifício. Contou como quem compreende que algumas obrigações não são impostas pela lei, mas pelo amor. Talvez venha daí sua maneira de enxergar o Bolsa Família. Hoje, à frente da Secretaria Nacional de Renda de Cidadania, ela sabe que os números não são apenas números. São pratos de comida, botijões de gás, remédios, material escolar e mães fazendo contas para que o mês termine depois do dinheiro, e não antes. Há quem administre programas sociais olhando gráficos. Eliane parece olhar primeiro para as pessoas que estão escondidas dentro deles.

Segunda versão: a mulher que viu Marcelo Déda governar até quando o corpo pedia descanso
Bastava o nome de Marcelo Déda entrar na conversa para que o tempo parecesse mudar de velocidade. Eliane não falava apenas de um ex-governador. Falava do homem com quem dividiu a casa, os filhos, os medos, os planos e o silêncio dos dias difíceis. Ela acompanhou Déda durante a doença e viu algo que a marcou profundamente: mesmo entre internações, exames e tratamentos, ele continuava governando. Enquanto os médicos discutiam o avanço do câncer, Marcelo discutia Sergipe. Queria saber das obras, da educação, dos hospitais, dos investimentos e dos projetos que ainda precisavam sair do papel. A doença ocupava o corpo, mas não conseguia ocupar seus sonhos.
Eliane recordou uma viagem oficial à França. A comitiva sergipana havia sido recebida inicialmente por um representante de menor escalão. Marcelo começou a falar em francês sobre Sergipe, apresentou o litoral, a economia, a localização estratégica e as oportunidades de investimento. O anfitrião ouviu alguns minutos, pediu licença e voltou com outras pessoas. Déda prosseguiu. O homem saiu novamente e retornou com autoridades ainda mais importantes. Ao final, aquela reunião protocolar havia se transformado em uma apresentação para representantes de alto nível. Marcelo não aumentou a voz, não inventou grandezas e não precisou explicar duas vezes quem era. Ele conhecia tanto Sergipe que fazia o interlocutor sentir vontade de conhecer também. Alguns governantes viajam para aparecer em fotografias. Déda parecia viajar para colocar Sergipe dentro da fotografia dos outros.
Quando Eliane compara os governadores que permaneceram na memória dos sergipanos, cita João Alves Filho pelas grandes obras e Marcelo Déda pela capacidade de projetar o Estado, ampliar políticas públicas e fazer Sergipe participar de discussões que antes pareciam distantes. É a visão de uma companheira, evidentemente, mas também de alguém que testemunhou o poder por dentro e conheceu o preço cobrado por ele. A política guarda os discursos, as placas e as inaugurações. A família guarda o homem cansado chegando em casa, a conversa interrompida pelo telefone, a preocupação com os filhos e os planos que ficaram pela metade. Eliane não fala de Déda como quem tenta manter uma estátua de pé. Fala como quem ainda encontra, em certas lembranças, o homem que amou.

Terceira versão: a política que nunca precisou deixar de ser gente
Eliane Aquino atravessou quase todos os grandes espaços do Executivo sergipano. Foi primeira-dama de Aracaju, primeira-dama de Sergipe, secretária de Estado, vice-prefeita, vice-governadora e hoje administra uma das políticas sociais mais importantes do país. Apesar disso, nunca construiu a imagem de quem vive permanentemente em campanha. Sua política parece nascer menos do palanque e mais da escuta. Em 2022, percorreu comunidades, bairros e associações e recebeu mais de 66 mil votos para deputada federal. Não foi eleita, mas sua votação teve papel decisivo no resultado da federação partidária. É uma dessas ironias do sistema eleitoral: às vezes, quem não conquista a cadeira ajuda a decidir quem vai se sentar nela.
Brasília é hoje o lugar de sua missão institucional, mas Sergipe continua sendo o lugar onde sua vida faz sentido. É aqui que estão suas raízes, os amigos, os filhos, as lembranças de Déda e os caminhos pelos quais aprendeu a conhecer as pessoas além das estatísticas. Quando fala sobre o Bolsa Família, Eliane insiste que cada benefício altera não apenas uma casa, mas toda uma pequena economia. O dinheiro chega à mãe, passa pela feira, pelo supermercado, pela farmácia e pelo comércio do bairro. O que alguns enxergam apenas como despesa pública, ela enxerga como dignidade circulando. Talvez porque tenha aprendido, ao longo da vida, que cuidar de uma pessoa nunca é cuidar apenas dela. É alcançar, silenciosamente, tudo o que existe ao seu redor.
Quando o avião começou a descer em Brasília, a conversa precisou terminar. As malas seriam recolhidas, os compromissos recomeçariam e cada um seguiria seu caminho. Mas algumas conversas não terminam quando o avião pousa. Elas permanecem dentro da gente. Ao final daquele voo, eu já não via apenas a antiga primeira-dama, a ex-vice-governadora, a ex-vice-prefeita ou a secretária nacional. Via a mãe que segura a mão do filho no aeroporto, a filha que interrompeu a própria vida para acompanhar a mãe e a companheira que permaneceu ao lado de Marcelo Déda quando o amor deixou de ser apenas felicidade e passou a ser também coragem. Talvez essa seja a versão mais bonita de Eliane Aquino: uma mulher que atravessou o poder, a doença, a perda e a política sem permitir que a vida endurecesse seu coração. E, num país em que tanta gente ocupa cargos importantes para se sentir maior que os outros, ela parece ter escolhido o caminho inverso. Quanto mais importante se tornou, mais humana fez questão de permanecer.





Respostas de 2
Eliane Aquino se supera a cada luta e a cada conquista sem nunca perder a doçura
Que texto interessantíssmo, Fausto. Adorei a leitura! Abs.