A disputa pelo Governo de Sergipe entrou naquela fase em que pesquisa eleitoral virou baguete quente saindo do forno: cada grupo pega a sua, passa manteiga narrativa por cima e serve ao povo como se fosse banquete científico. O Instituto França, que em levantamentos anteriores vinha colocando Fábio Mitidieri à frente de Valmir de Francisquinho, acabou agora vendo uma de suas pesquisas suspensa pela Justiça Eleitoral. Aí o comentário nos bastidores foi inevitável: dessa vez, parece que fizeram uma pesquisa para a França ver, mas o TRE resolveu pedir o passaporte metodológico na imigração.
A decisão do TRE-SE não disse que houve fraude consumada, nem carimbou o levantamento como golpe estatístico de paletó. O que a Justiça apontou foi vício metodológico relevante, especialmente a inclusão de pessoas de 15 anos na amostra, faixa etária que não representa adequadamente o universo de eleitores aptos. Em eleição, isso é grave. Pesquisa com eleitor que ainda nem vota é como fazer degustação de vinho com criança em excursão escolar: pode até ter formulário, mas o resultado nasce pedindo socorro.
Também é preciso registrar que o juiz auxiliar Jailsom Leandro de Sousa não acolheu tudo que foi alegado contra o Instituto França. A pergunta sobre influência de prefeitos, por exemplo, não foi considerada irregular naquele primeiro olhar judicial, e o problema envolvendo cargos de deputado poderia ser parcialmente saneado. A suspensão veio, sobretudo, pela falha no quadro amostral. Ou seja, não precisa colocar boina francesa, subir na Torre Eiffel e gritar revolução. Basta ler a decisão e entender que número eleitoral sem amostra correta vira croissant murcho na vitrine da política.
O mais curioso é que essa suspensão atinge justamente um instituto que já vinha produzindo fotografias simpáticas ao governador Fábio Mitidieri. Em fevereiro, o Instituto França apontou Fábio à frente de todos os nomes da oposição. Em março, voltou a mostrar vantagem do governador sobre Valmir. Agora, quando uma nova pesquisa do mesmo instituto ia para a rua, a Justiça mandou parar o desfile. E pesquisa eleitoral, convenhamos, quando sai de salto alto demais, às vezes tropeça na própria margem de erro.
Enquanto isso, o cenário continua aberto. A W1 de abril colocou Valmir com 39,9% contra 35,3% de Fábio. A Positiva também mostrou Valmir numericamente à frente em outro levantamento. Depois, a W1 de junho inverteu a foto e apontou Fábio na liderança. Isso mostra que Sergipe não está diante de eleição resolvida, nem de coroação antecipada, nem daquele velho sonho de W.O. governista. Quem achou que a campanha seria passeio no calçadão descobriu que tem ladeira, buraco, sol quente e eleitor olhando tudo com cara de quem já viu muito filme repetido.
Valmir de Francisquinho segue com um ativo político que não cabe em planilha bonita: presença popular. É o político do corpo a corpo, da rua, do aperto de mão, do eleitor que não frequenta jantar de empresário, mas sabe exatamente quanto custa o arroz, o gás e a passagem. Fábio tem máquina, prefeitos, estrutura e palanque. Valmir tem chão. E, em Sergipe, chão político costuma ser mais perigoso para governante acomodado do que qualquer pesquisa com gráfico colorido e título triunfalista.
No fim, a guerra das pesquisas precisa mesmo de freio, farol e bafômetro estatístico. O TRE não está escolhendo candidato. Está lembrando aos institutos que eleição não é Moulin Rouge de número dançando cancan para agradar plateia política. Pesquisa séria informa. Pesquisa torta confunde. E em 2026, com Fábio Mitidieri e Valmir de Francisquinho disputando cada centímetro do imaginário popular, uma coisa já ficou clara: Sergipe não tem dono, não tem resultado carimbado e não tem urna escrita em francês. Quem vai decidir é o povo, no português claro da cabine de votação.




