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Em Socorro, prefeito sempre teve uma deputada para chamar de sua; Fábio agora procura uma máquina que já não obedece

Fábio Henrique não é aventureiro de eleição, candidato de ocasião nem turista de urna. Foi o vereador mais votado de Aracaju em 2004, venceu duas eleições para prefeito de Nossa Senhora do Socorro, elegeu-se deputado federal em 2018 e voltou à Câmara como suplente em 2024. Comunicador, formado em direito e policial rodoviário federal, ele conhece palanque, rádio, carreata e aquela ciência política de Socorro que consiste em cumprimentar cinquenta pessoas e lembrar o nome de quarenta e nove. Seu currículo é respeitável. O problema é que currículo não vota, fotografia antiga não aperta o número e gratidão política costuma vencer no máximo até a próxima composição partidária.

Socorro possui uma tradição quase folclórica: prefeito eleito tratava logo de fabricar uma deputada estadual dentro de casa. Zé Franco elegeu a esposa Venúzia Franco em 1994, com 8.850 votos. Depois ajudou a eleger a irmã Celinha Franco, que recebeu 21.068 votos em 2002 e 22.414 em 2006. Tonho da Caixa colocou a esposa Elma Paixão na Assembleia, com 10.996 votos em 1998. Fábio Henrique levou a mulher, Sílvia Fontes, a impressionantes 42.613 votos em 2014, sendo 17.166 somente em Socorro. Padre Inaldo manteve a tradição familiar e ajudou Carminha Paiva a alcançar 34.790 votos em 2022, aproximadamente oito mil deles no município. Em Socorro, durante muito tempo, a faixa de primeira-dama parecia vir acompanhada de um anexo: “favor escolher o número para deputada estadual”.

Aquela máquina funcionava porque havia comando, concentração e pouca delicadeza com a independência dos aliados. A prefeitura escolhia o nome, os vereadores decoravam o número, os secretários ensaiavam o discurso e as lideranças saíam pelos bairros como vendedores que não podiam voltar com mercadoria. O eleitor podia até discordar, mas o grupo político raramente recebia autorização para pensar sozinho. Hoje, o cenário é outro: Socorro possui mais grupos, mais deputados circulando e mais vereadores com compromissos próprios. A velha tropa eleitoral virou condomínio. Todo mundo mora no mesmo prédio, mas cada apartamento apoia um candidato diferente.

Samuel Carvalho oficializou apoio a Fábio Henrique, portanto seria incorreto afirmar que o ex-prefeito está abandonado pelo atual gestor. O que ainda não está demonstrado é se o apoio formal virou uma operação com o mesmo entusiasmo das eras de Venúzia, Elma, Celinha, Sílvia e Carminha. Samuel também colocou a esposa, Adriana Carvalho, como primeira suplente de Alessandro Vieira ao Senado. Ele não abandonou completamente a tradição matrimonial de Socorro; apenas promoveu a esposa de candidata estadual para eventual senadora sem precisar disputar voto nominal. É a modernização administrativa do costume: antes a primeira-dama precisava pedir voto, agora pode aguardar a cadeira na sala de embarque.

Fábio também não disputa sozinho dentro do MDB. A convenção confirmou 21 candidatos estaduais, incluindo Antônio de Juca, Dr. Gilson, Garibalde Mendonça e o próprio Fábio Henrique. Antônio tenta crescer com juventude e apoios municipais; Dr. Gilson possui trajetória política em Estância; Garibalde retorna ao MDB buscando o oitavo mandato consecutivo; e Fábio tenta reconstruir sua antiga fortaleza metropolitana. Não há dados públicos suficientes para garantir 35 mil ou 40 mil votos a Antônio, declarar Dr. Gilson segundo colocado ou determinar previamente quem ficará com cada vaga. O que existe é uma chapa cheia de candidatos experientes, todos sorrindo na convenção e procurando discretamente descobrir de qual colega poderão retirar dois mil votos.

A candidatura de Fábio Henrique é competitiva por sua história, seu conhecimento público e sua ligação com Socorro, mas será difícil justamente porque ele pode estar procurando a cidade que governou e encontrar outra no lugar. Em 2018, recebeu 35.226 votos para deputado federal; em 2022, caiu para 28.171 e ficou como suplente. Agora disputará uma cadeira estadual, eleição teoricamente mais acessível, mas dentro de uma nominata competitiva e numa base municipal fragmentada. Se acreditar que Socorro entregará automaticamente 15 mil votos apenas por lembrança dos velhos tempos, poderá descobrir que a máquina não está quebrada: ela apenas foi desmontada, dividida entre vários candidatos e entregue sem manual de instruções. Fábio tem história para brigar por uma cadeira. O que não tem mais é uma prefeitura inteira marchando como escola de samba, com vereadores na bateria, secretários na comissão de frente e a primeira-dama carregando o estandarte.

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