Toda campanha eleitoral produz seu instante de milagre orçamentário. O senador ou deputado sobe ao palanque, enche o peito, ajeita o microfone e anuncia: “Eu destinei cinco milhões”. Pela emoção do discurso, o eleitor imagina que o parlamentar vendeu a casa, raspou a poupança, quebrou o porquinho dos filhos e chegou ao município trazendo um cheque pessoal entre os dentes. Calma, excelência. Antes que apareçam auréola, beatificação e medalha de benfeitor da pátria, convém esclarecer: senador e deputado não doaram dinheiro nenhum. Eles indicaram a aplicação de recursos públicos que já pertenciam à população. O mérito pode existir na escolha, na articulação e na fiscalização, mas o dinheiro não nasceu no gabinete, não brotou do paletó e muito menos caiu da carteira parlamentar, onde costuma morar apenas o cartão funcional.
Quando um político afirma que “destinou milhões” para a saúde, a educação ou a pavimentação, é preciso traduzir a frase para o idioma da honestidade orçamentária: “Indiquei que parte do dinheiro de vocês fosse aplicada neste lugar”. Essa tradução não diminui o trabalho do mandato; apenas devolve a propriedade ao verdadeiro dono. O dinheiro pertence ao trabalhador de Cumbe, São Miguel do Aleixo, General Maynard, Graccho Cardoso, Itabi, Itabaiana, Umbaúba, Aracaju e de cada município onde o cidadão paga imposto até quando compra café, pão e remédio. A ambulância não deve favor ao deputado. É o deputado que deve explicações aos donos da ambulância: os contribuintes.
O teatro chegou a tal ponto que houve até deputado estadual entregando um carrinho de brinquedo em forma de ambulância para simbolizar o veículo que, segundo o anúncio, chegaria depois. A ambulância verdadeira ainda não havia aparecido, mas a miniatura chegou pontualmente para a fotografia. A saúde pública, então, entrou na fase da maquete: o paciente é real, a doença é real, a espera é real, mas a ambulância ainda cabe na palma da mão. Se surgisse uma emergência, o motorista precisaria ser um bonequinho e o doente teria de aguardar a versão em tamanho natural. Pelo menos o marketing recebeu atendimento imediato, sem enfrentar fila, regulação ou falta de combustível.
A emenda parlamentar é um instrumento legítimo e pode levar recursos a hospitais, escolas, estradas, associações e projetos sociais. O problema começa quando a necessidade pública perde espaço para o mapa do curral eleitoral. O município do aliado recebe uma tempestade de milhões, enquanto a cidade sem padrinho continua esperando uma garoa. Se a maior fatia vai para uma prefeitura comandada por parente ou correligionário, isso não representa automaticamente uma ilegalidade, mas exige justificativa, transparência e fiscalização redobradas. Coincidência demais também precisa prestar contas. Afinal, dinheiro público não pode ter árvore genealógica, sobrenome político nem endereço reservado na agenda do deputado.
Também é preciso encerrar o espetáculo das entregas. Tem faixa, fogos, discurso, chave simbólica, carreata e parlamentar acariciando ambulância como se tivesse montado o motor na garagem de casa. O que raramente aparece na fotografia é o número da emenda, o valor autorizado, quanto foi empenhado, quanto efetivamente chegou, quem realizou a compra, qual empresa recebeu, quanto custou o veículo e quem fiscalizará sua utilização. Anunciar dez milhões é fácil. Difícil é acompanhar cada centavo até o serviço funcionar. Emenda indicada não é emenda paga. Emenda paga não é obra concluída. Obra inaugurada não significa atendimento garantido. E carrinho de ambulância, definitivamente, não transporta paciente.
A cada “eu destinei”, o eleitor deve responder com perguntas: o dinheiro saiu de qual orçamento? Por que esse beneficiário foi escolhido? Quanto já foi pago? Quem está executando? Qual resultado foi entregue? O parlamentar merece reconhecimento quando indica bem, distribui com justiça, acompanha a execução e cobra resultados. O que ele não pode é posar como proprietário da verba, utilizar imposto como ração para curral eleitoral e apresentar recurso público como presente de aniversário. O dinheiro não pertence a senadores, deputados ou governos. O dinheiro é nosso. Eles receberam apenas a caneta por prazo determinado. E toda caneta que indica milhões precisa escrever, com a mesma empolgação do palanque, a prestação de contas.




