PUBLICIDADE

Emília x Candisse: quando a crítica vira caso de justiça

Olha, eu preciso começar com uma confissão: eu sou uma grande crítica da prefeita Emília Corrêa. De verdade. Fiz Direito na Federal, em Aracaju, e em alguns momentos nossos caminhos se cruzaram em estágio, corredores, seminários. Talvez ela nem se lembre de mim, e está tudo bem. Mas eu lembro dela, da postura firme, do tom sério, da mulher que sempre gostou de falar de princípios. Justamente por isso, e por ser advogada e jornalista há décadas e bote décadas nisso, é que eu também não consigo aplaudir tudo o que está acontecendo agora entre Emília e a jornalista Candisse Carvalho sem botar algumas cartas na mesa.

A ação criminal movida por Emília contra Candisse, que tramita na 2ª Vara Criminal de Aracaju, é um retrato cristalino desses tempos digitais em que todo mundo acha que um story de 30 segundos tem o peso de um editorial e a força de uma sentença. Segundo a queixa, Candisse teria publicado uma sequência de vídeos no Instagram, em tom sarcástico e insistente, atribuindo à prefeita crimes como corrupção, superfaturamento, nepotismo, fraude em licitações e favorecimento ilícito, tudo isso temperado com apelidos depreciativos como “Prefa TikTok” e frases do tipo “ela não manda em nada”. Em algumas postagens, fala-se até em superfaturamento de R$ 15 milhões, sempre com ar de certeza absoluta, como se o feed fosse um inquérito concluído.

Aqui eu preciso entrar não só como jornalista, mas como alguém que há anos estuda comportamento, persuasão e linguagem: crítica política é saudável, é necessária e é parte essencial da democracia. Democracia sem crítica é como vestido de alta-costura guardado no plástico: parece bonito, mas, na prática, não serve para nada. O problema começa quando a crítica deixa de ser análise e vira acusação formal disfarçada de opinião, sem prova, sem documento, sem investigação oficial, sem ouvir o outro lado. A própria peça de Emília diz que as imputações foram apresentadas como fatos determinados, não como perguntas ou suspeitas, e isso muda tudo na régua jurídica.

E é aqui que entra a minha diferença com Candisse. Eu também faço críticas a prefeitos, governadores, deputados, senadores, influenciadores e quem mais ocupe espaço de poder. Faz parte do meu ofício. Já escrevi textos duríssimos, já questionei gestões inteiras, já desmontei narrativas embaladas para presente. Mas sempre tive muito claro um limite que aprendi na redação e levo como mantra: se eu não posso sustentar em juízo, eu não publico como fato. Posso levantar dúvida, posso perguntar, posso dizer “isso precisa ser investigado”. Mas acusar alguém de crime, com nome, sobrenome e cifra, sem respaldo mínimo, não é coragem, é imprudência.

Como eu costumo brincar com meu “Peixiu Biamunis” interior, aquele lado crítico, ácido, que mora na gente e adora uma polêmica:
“Antes de apertar o botão de postar, pergunta: você faria essa mesma afirmação diante de um juiz, olhando nos olhos de quem está sendo acusado?” Se a resposta é não, talvez isso não seja fato. Talvez seja só raiva, frustração ou militância mal embalada.

Tem outro ponto que não dá para ignorar: Candisse não é apenas uma jornalista comentando a política local. Ela foi candidata à Prefeitura de Aracaju em 2024 e perdeu justamente para Emília. Isso não tira o direito dela de criticar, de forma alguma. Mas adiciona um tempero político nada desprezível ao discurso. Quando alguém que perdeu uma eleição passa meses produzindo vídeos em série contra quem venceu, sem o cuidado mínimo de formalidade, checagem e contraponto, a crítica começa a cheirar mais a ressentimento do que a fiscalização.

E, já que estamos falando de pós-eleição, vale fazer um contraste elegante e necessário: o comportamento de Yandra Moura. Yandra perdeu, recuou, aceitou o resultado, não saiu em cruzada pessoal contra Emília, não transformou derrota em campanha permanente de ataque. Concorde-se ou não com as bandeiras dela, há uma postura aí que merece ser registrada: saber perder também é sinal de maturidade democrática. Em política, como na moda, tem gente que entende que coleção passou, estação mudou, e é hora de desenhar o próximo passo, não de ficar desfilando a mesma peça puída, esperando aplauso atrasado.

Voltando ao processo: ao invés de responder com outra enxurrada de vídeos ou entrar na guerrilha digital, Emília escolheu o caminho institucional. Protocolou a queixa-crime, pediu o acompanhamento do Ministério Público, alegou que sua honra pessoal e profissional foi atingida e que as ofensas foram muito além da crítica à gestão. Lembrou ainda que, por se tratar de supostos crimes atribuídos a uma funcionária pública em razão do cargo e divulgados em redes sociais, pode haver aumento de pena previsto no Código Penal. Em bom português: ela tirou a discussão do palco dos stories e levou para o palco do Fórum.

E aí vem a pergunta incômoda, mas necessária: isso é censura? Não, não é. Censura é calar a crítica antes que ela exista. O que está em jogo aqui é outra coisa: é a responsabilidade sobre o que já foi dito, da forma como foi dito, com o alcance que teve. Liberdade de expressão não é salvo-conduto para transformar qualquer antipatia política em acusação de crime. Humor, ironia, sátira, tudo isso é legítimo. Mas, a partir do momento em que você aponta o dedo para alguém e declara “essa pessoa roubou X milhões”, o campo deixa de ser opinião e entra na seara penal.

Como Bia Muniz, como jornalista e como alguém que aprendeu muito cedo que palavra tem peso, eu me coloco exatamente no meio desse ringue: – De um lado, defendo o direito de Candisse criticar a prefeita ou a “Prefa TikTok”, como costuma abrir seus conmentários, o governo, a cidade, o cenário político. Jornalista que tem medo de crítico de poder está no lugar errado. – Do outro, reconheço o direito de Emília de reagir quando sente que sua honra virou brinquedo de story,especialmente quando a crítica abandona o terreno do questionamento e se fantasia de sentença condenatória.

No final das contas, esse episódio é um lembrete importante para todos nós que lidamos com comunicação, seja com microfone, câmera, teclado ou celular na mão: microfone não é martelo, e rede social não é tribunal. A opinião pode ser firme, irônica, debochada. Mas, quando o discurso passa a afirmar crime como se fosse fato provado, o risco jurídico deixa de ser teoria.

Emília tem o direito de se defender. Candisse tem o direito de criticar. A Justiça tem o dever de arbitrar. E nós, jornalistas, influenciadores e comunicadores de plantão, temos a obrigação de aprender com esse caso. Antes de publicar, verifique. Antes de acusar, reflita. Antes de gravar o próximo vídeo, pergunte a si mesmo se não está tentando reviver uma eleição que já acabou, como quem insiste em usar um look de três temporadas atrás esperando que ele seja novidade. Porque like passa. Story some. Mas processo, meu bem… processo fica.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *